Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

30 de ago de 2013

Dançar

Eu danço...
Sem ensaio ou coreografia,
apenas desejo estender meus longos braços
num giro do infinito,
e tecer com meus pés os desenhos inconfundíveis da liberdade...
Gosto de dançar,
e sentir o gosto de teus braços que me apertam
de tuas mãos que me seguram, segura...
Gosto do toque das mãos, dos carinhos sem fim,
sem começo, sem coisa alguma
que não seja teu amor por mim!
Eu amo...
Mesmo que incompreensível seja amar!
Se nada mais há de tão belo e precioso
que possa nos tocar...
E neste espaço sagrado,
eu e tu, que são muitos,
nos amamos
e dançamos felizes,
e aqui enterramos
tantas cicatrizes, machucados dos tempos,
das eras, que já não importam mais,
e colhemos os pedaços da alma perdidos,
e nos colamos, uns aos outros,
apenas para ser felizes,
e dançar!

Ana Liliam

29 de ago de 2013

Gosto de sol

Bom dia!!!!

Um gosto de sol nos lábios, um cheiro de café na boca, um tapete de folhas sobre o rosto nesta manhã tão convicta. E o dia, com passos largos, desenha caminhos de luz. Ainda é cedo, a areia sem pegadas. Só o resquício de espuma do mar que diluiu toda a noite. A lua mudada em suas formas, opaca no azul infantil: desavisada, perdeu a hora e amanheceu deitada no alto da pedra, do lado esquerdo do sol. Ainda a mesma amendoeira adorna a janela do quarto, mas ela não é mais a mesma para os meus olhos inéditos. E o mundo respira macio, o vento dança dentro do arrepio, casaco de lã sobre a pele. E um gosto de café na boca, perfume de sol nos cabelos, a pedra que vigia a lua desarredondada e opaca. 

O céu que perdeu o anil reina convicto agora, em seu azul infantil.

Marla de Queiroz
Um gosto de sol nos lábios, um cheiro de café na boca, um tapete de folhas sobre o rosto nesta manhã tão convicta. E o dia, com passos largos, desenha caminhos de luz. Ainda é cedo, a areia sem pegadas. Só o resquício de espuma do mar que diluiu toda a noite. A lua mudada em suas formas, opaca no azul infantil: desavisada, perdeu a hora e amanheceu deitada no alto da pedra, do lado esquerdo do sol. Ainda a mesma amendoeira adorna a janela do quarto, mas ela não é mais a mesma para os meus olhos inéditos. E o mundo respira macio, o vento dança dentro do arrepio, casaco de lã sobre a pele. E um gosto de café na boca, perfume de sol nos cabelos, a pedra que vigia a lua desarredondada e opaca.

O céu que perdeu o anil reina convicto agora, em seu azul infantil.

Marla de Queiroz

Amor amigo


















"Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."

Fernando Pessoa.

Obra de Mark Kostabi.

28 de ago de 2013

Ela acordou W3

Crônica publicada na VEJA Brasília desta semana.

16.ago.2013 12:02:54 | por Daniel Cariello



– Bom dia, doutor.

– Bom dia, o que a traz aqui?

– Hoje eu acordei totalmente W3!

– Não me diga… Como isso começou?

– Não sei bem. Ontem, depois da segunda pinga de pequi, comecei a me sentir meio tesourinha. Aí, quando me olhei no espelho de manhã, notei que estava assim, W3.

– Você está se sentindo mais W3 Sul ou Norte?

– E tem isso?

– Tem, claro. É comum pacientes reclamarem de uma sensação de W3 Sul, um sentimento de se tornarem desimportantes depois de terem vivido uma época de glória.

– Talvez eu esteja mais W3 Norte, então. Tô me sentindo como alguém que tinha um grande vazio que foi preenchido desorganizadamente.

– Era disso que eu tinha medo!

– Por quê, doutor?

– Casos de W3 Sul são mais facilmente tratados. Uma volta de Grande Circular às 18 horas geralmente resolve. O sentimento de abandono desaparece completamente.

– Sério?

– É batata! O único efeito colateral possível é a síndrome de W3 Sul ser substituída por uma de Sudoeste Econômico, uma sensação horrível de aperto. Mas essa é temporária: basta descer do ônibus que passa.

– Mas então o meu caso de W3 Norte é grave, doutor?

– Não sei dizer. É um fenômeno relativamente novo. Tive poucos pacientes com esse diagnóstico.

– Você pode me ajudar? Por favor!

– Podemos tentar um tratamento alternativo. Há alguns meses, recebemos aqui um rapaz com os mesmos sintomas e receitamos uma grande dose de Conjunto Nacional. Nada como combater o caos com mais caos.

– Deu certo?

– Não sabemos, parece que ele se perdeu no shopping e não conseguiu mais encontrar a saída. Olhando pelo lado bom, não voltou para reclamar. Mas não se preocupe, vamos utilizar outra técnica com você. Só não posso garantir que vá funcionar.

– Topo qualquer coisa para me livrar disso.

Uma semana depois, ela retorna ao consultório.

– Que bom vê-la novamente! Seguiu o tratamento?

– Segui.

– Ficou uns dias em casa, quieta, sem contato com o mundo, só escutando Legião Urbana acústico e Renato Russo em italiano?

– Fiquei.

– Ainda está W3?

– Não.

– Eu sabia!!! Como se sente agora?

– Depois desse claustro? Agora me sinto Noroeste: totalmente vazia, subitamente desvalorizada, completamente empoeirada. Você precisa me ajudar, doutor!

– Ai, meu Dom Bosco...

enviada por Wilson

27 de ago de 2013

Amazing Norwegian proposal!



A aldeia tem só 110 habitantes… Então como surpreender e fazer um pedido de casamento diferente? O rapaz sabia que a noiva gostaria de ir para Itália um dia, então resolveu trazer um pouco da itália pra ilha de Røvær.

Com 110 habitantes, menos do que vocês tem de amigos no 'face', é claro, que todos souberam do pedido surpresa e ajudaram um pouco.

Inspirem-se!

7 de ago de 2013

CAFÉ COM AS AMIGAS

No final de uma palestra sobre saúde na Universidade de Stanford o palestrante apontou, entre outras coisas, que os estudos mostram que uma das melhores coisas que um homem pode fazer por sua saúde é se casar: o casamento aumenta a longevidade e o bem-estar pessoal do homem.

Questionado sobre a saúde da mulher, o palestrante apontou um dado surpreendente: ao invés do casamento a mulher precisa cultivar seus relacionamentos com as amigas!

Essa declaração provocou risos na platéia, mas o professor fundamentou o fato muito à sério.

Os estudos realizados mostram que as mulheres se conectam de maneira diferente dos homens e fornecem outros sistemas de apoio que as ajudam a lidar com experiências estressantes e difíceis em suas vidas.
"Tempo com Amigas" é muito significativo no nível fisiológico: ajuda a produzir mais serotonina (neurotransmissor) que auxilia no combate à depressão e cria um sentimento geral de bem-estar. As mulheres tendem a compartilhar seus sentimentos, enquanto os homens geralmente se conectam em torno de tarefas. Eles raramente se sentam com um amigo falando sobre como se sentem sobre algo, ou como está sua vida pessoal. Falam de trabalho, esportes, carros, mulheres, etc. mas dos seus sentimentos, raramente...

As mulheres fazem isso o tempo todo. Elas compartilham sentimentos e emoções das profundezas de suas almas com suas amigas, e parece que isso realmente contribui para a sua própria saúde.

O conferencista acrescentou, ressaltando que o "tempo gasto" com amigas é tão importante para a saúde das mulheres como correr ou fazer ginástica.

De fato, há uma tendência (errônea) de pensar que quando nos envolvemos com alguma atividade física estamos fazendo algo de bom para o nosso corpo, enquanto que quando conversamos com as nossas amigas, "desperdiçamos" o tempo em vez de fazer algo mais produtivo.

O orador salientou que não manter relacionamentos de qualidade com outras pessoas prejudica a nossa saúde física tanto quanto o fumo!

Portanto, cada vez que nós (as mulheres, é claro) sentamos para conversar com uma amiga estamos fazendo algo muito benéfico para a nossa saúde.

Então... "Tim-Tim" ao café, chá, suco, etc. com as amigas!

enviado por Jane

6 de ago de 2013

A complicada arte de ver



Rubem Alves
colunista da Folha de S.Paulo

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=3422171244595345730#editor/target=post;postID=4598525368190480809


enviado por Durante
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