Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

15 de jul de 2011

A SERENATA


 Uma noite de lua pálida e gerânios
 ele viria com boca e mãos incríveis
 tocar flauta no jardim.
 Estou no começo do meu desespero
 e só vejo dois caminhos:
 ou viro doida ou santa.
 Eu que rejeito e exprobro
 o que não for natural como sangue e veias
 descubro que estou chorando todo dia,
 os cabelos entristecidos,
 a pele assaltada de indecisão.
 Quando ele vier, porque é certo que vem,
 de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
 A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
 - só a mulher entre as coisas envelhece.
 De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
 Como a fecharei, se não for santa?

 Adélia Prado

14 de jul de 2011

A Sabedoria do Salgueiro


O primeiro passo da dança é o enraizamento...
Encontrar o eixo imóvel
que nos permitirá
abandonarmo-nos aos movimentos
do Inspirar e do Expirar.
Antes de brincar de Oceano,
conhecer suas ondas...

Caminhar a passo de raízes,
nem ao longo, nem ao largo.
Caminhar em profundidade
em direção às Alturas.
Buscar em nossas raízes
a seiva de nosso futuro.

Jean Yves Leloup

10 de jul de 2011

POR FAVOR ME TOQUE

Se sou bebê, por favor me toque
Preciso de seu afeto de uma maneira
que talvez nunca saiba.
Não se limite a me banhar,
trocar minha fralda e me alimentar.
Embale-me, beije o meu rosto
e acaricie meu corpo.
Seu carinho gentil, confortador,
transmite segurança e amor.
Se sou criança, por favor, me toque
ainda que eu resista e até rejeite,
insista, descubra um jeito de atender
minha necessidade.
Seu abraço de boa noite ajuda a
adoçar meus sonhos.
Seu carinho de dia me diz
o que você sente de verdade
Se sou adolescente, por favor me toque.
Não pense que eu, por estar quase crescido,
já não preciso saber que você
ainda de importa comigo.
Necessito de seus braços carinhosos,

preciso de sua voz terna.
Quando a vida fica difícil,
a criança em mim volta a precisar.
Se sou seu amigo ou amiga,
por favor me toque.
Nada como um abraço afetuoso,
para que eu saber que você se importa comigo.
Um gesto de carinho, quando estou deprimido,
me garante que sou amado e
me reafirma que não estou só.
Seu gesto de conforto talvez seja
o único que eu consiga.
Se sou seu namorado ou namorada ou seu cônjuge,
por favor me toque.
Talvez você pense que sua paixão baste.
Mas só teus braços detêm meus temores.
Preciso do seu toque terno e confortador,
para me lembrar de que sou amado,
apenas porque eu sou eu.
Se sou seu filho adulto, por favor me toque
embora eu possa até ter
minha própria família para abraçar.
Ainda preciso dos braços de minha mãe
e de meu pai, quando me machuco.
Como pai, a visão é diferente
e eu os estimo mais
Se sou seu pai idoso ou sua mãe idosa,
por favor me toque
do jeito que me tocaram
quando eu era bem pequeno.
Segure minha mão,
sente- se perto de mim,
dê- me sua fôrça e aqueça meu corpo
com sua proximidade
Se sou seu paciente, por favor me toque.
O contato de sua mão me diz
que você compreendeu minha aflição.
Eu sei que você não pode tudo,
mas seu afago me dá a certeza
de que você está ao meu lado
e isso pode me curar.
Não tenha medo
Apenas me toque!
  
Phyllis K.David.

9 de jul de 2011

O PODER DA ESCRITA

 
(Autor Desconhecido)

"Se me disseres que me amas, acreditarei...
Mas se escreveres que me amas, acreditarei ainda mais.

Se me falares da tua saudade, entenderei...
Mas se escreveres sobre ela, sentirei junto contigo.

Se a tristeza vier te consumir e me contares, eu saberei...
Mas se a descreveres no papel, o seu peso será menor."

E assim são as palavras escritas; possuem um magnetismo especial, libertam, acalentam, invocam emoções.
Elas possuem a capacidade de em poucos minutos cruzar mares, saltar montanhas, atravessar desertos intocáveis.

Muitas vezes, perde-se o autor,
mas a mensagem sobrevive ao tempo,
atravessando séculos e gerações.
Elas marcam um momento que
será eternamente revivido por todos
aqueles que a lerem.

Transmita amor com as palavras,
mate saudades,
peça perdão,
aproxime-se,
recupere o tempo perdido,
insinue-se,
alegre alguém,
dê simplesmente um bom dia,
faça um carinho especial.

Use-a a todo instante, de todas as maneiras....sua força é imensurável.
Não esqueça:
 
 "Quem escreve constrói um castelo,
 e quem lê, passa a habitá-lo..."

7 de jul de 2011

Não indague se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo.


“Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indague se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo.

Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite,
Enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo
Te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
Se pressentires que amanhã estarás mudo,
Esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.
Canta,canta, para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo
No tempo, rumo ao céu?
Que importa a rota!
Voa e canta enquanto resistirem as asas...”

Menotti Del Pichia

6 de jul de 2011

Quase, Luiz Fernando Veríssimo


Ainda pior que a convicção do não,
é a incerteza do talvez,
é a desilusão de um quase!

É o quase que me incomoda,
que me entristece,
que me mata trazendo tudo
que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga,
quem quase passou ainda estuda,
quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades
que escaparam pelos dedos,
nas chances que se perdem por medo,
nas idéias que nunca sairão do papel
por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes,
o que nos leva a escolher
uma vida morna.

A resposta eu sei de cor,
está estampada na distância
e na frieza dos sorrisos,
na frouxidão dos abraços,
na indiferença dos "bom dia",
quase que sussurrados.

Sobra covardia
e falta coragem até para ser feliz.

A paixão queima,
o amor enlouquece,
o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos
para decidir entre a alegria e a dor.
Mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo
no meio-termo,
o mar não teria ondas,
os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina,
não inspira,
não aflige nem acalma,
apenas amplia o vazio
que cada um traz dentro de si.

Preferir a derrota prévia
à dúvida da vitória
é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Para os erros há perdão,
para os fracassos, chance,
para os amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar
um coração vazio
ou economizar alma.
Um romance cujo fim
é instantâneo ou indolor
não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque,
que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e
acredite em você.
Gaste
mais horas realizando
que sonhando...
Fazendo que planejando...
Vivendo que esperando...

Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

5 de jul de 2011

Mas Que Coisa!!!


A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas do português.
A natureza das coisas: gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha. Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já." E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.

Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!".

Devido lugar

"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. "Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca." Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas. Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta "Alguma coisa acontece no meu coração", de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB.

No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré ("Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar"), e A Banda, de Chico Buarque ("Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor"), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".

Cheio das coisas

As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas. Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, "são tantas coisinhas miúdas"). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade ("ô coisinha tão bonitinha do pai"). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa... Já qualquer coisa doida dentro mexe." Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem."

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai." Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à toa

Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente." E, no verso do poeta, "coisa" vira "cousa".

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.

Mas, "deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida", cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: "amarás a Deus sobre todas as coisas".

Entendeu o espírito da coisa?

enviado por Luís Otávio

3 de jul de 2011

A dança significa transformar

 

o espaço, o tempo e o homem,
que sempre corre perigo
de ser perder – ser somente cérebro
ou só vontade ou só sentimento.
A dança porém exige
o ser humano inteiro,
ancorado no seu centro
e que não conhece a vontade
de dominar as coisas,
e que não sente a obsessão
de estar perdido no seu ego.
A dança exige o homem livre e aberto
vibrando na harmonia de todas as forças
Ó homem, ó mulher aprenda a dançar
senão os anjos do céu
não saberão o que fazer contigo!
Santo Agostinho
Related Posts with Thumbnails