Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

11 de dez de 2009

O menino e o poeta, do meu amigo Miguel, romancista, cronista, poeta e também menino!

O poeta aos sent'anos

é como um menininho de sete

(só não pinta o 7).


O menino quer ter nove anos

pra soltar arraia grande, o cação,

que agora não consegue segurar.


Agora ele já tem doze e está querendo paquerar sua vizinha

(aquela menina de olhinho verde)

que nunca lhe deu bola.


O menino e o poeta se conheceram no parque

quando olhavam, deslumbrados,

o fascínio do lago azul.


Eles experimentam sentimentos iguais:

misto de ansiedade, êxtase, arrebatamento e mistério diante das águas profundas e das peripécias da vida.

Cruzam no tempo e no espaço suas almas mabaças.

O tempo! Ah! O tempo, esse vácuo abissal e fugidio

que ninguém retém

a não ser no eterno agora!


Continuam juntos. Mudos. Não carece palavrear.


Com doze anos o menino já entra em filme impróprio até catorze anos. Estão na fila do cinema. A atriz vai

aparecer nua.

Ambos sabem que vieram assistir a fita

só para vê-la pelada.


O menino quebra o silêncio:

- e o que você faz?

- eu também sou menino, responde o poeta.

- então sabe jogar gude?

- sim, muito bem.

- e jogar pião?

- sou craque: o pião roda – vivo – na palma da minha mão:

olhe só o calo que tenho no centro da palma direita.

- que barato! Vou contar aos meus amigos que conheci

um Campeão de Pião!


De repente o menino diz:

- sabe o que eu vou ser quando crescer?

- diga

- vou ser poeta!

- que legal! Mas você sabe o que faz um poeta?

- ah! Eu nem lhe conto. Meu avô era poeta e me explicou tudo.


E continuou o menino: poeta é um homem mágico, pois vê tudo ao contrário do que acontece. Vê colorido onde não tem cor, sente brisa no calor, os passarinhos fazem ninhos no seu ombro. O poeta sabe assoviar bem, pode andar nas nuvens e tocar a lua com o dedo. Se pegar uma flor murcha, ela ficará fresca e sedosa. O poeta diz coisas tão bonitas que nenhuma menina resiste. Namorada pra ele, é só escolher.


- Tudo isso lhe disse o seu avô?

- Isso e muito mais. Quer saber?


O poeta escreve estórias de borboletas amarelas e azuis, fala sempre em amor, sonha acordado pensando que está dormindo. É um porreta! Ele pesca “oré” nas pedrinhas que formam poça. Adora peixinhos vermelhos, céu azul anil, nuvens que formam bichos, e, se chove, ele gosta de se molhar. Poeta não usa guarda-chuva. Ele sabe escrever bonito e conhece tudo de rima: perdão com paixão, lerdeza com esperteza, bonito com infinito, namorada com encantada marisco com chuvisco e flor com amor. Vive no mundo da lua, dizia vovô, mas isso é mentira pois na lua só tem areia, São Jorge e o Dragão.


Pergunta o poeta: - e poeta ganha dinheiro?

- não! Ele não liga pra dinheiro

vive sempre na pindaíba. Ele só quer dar

felicidade, alegria e esperança a quem não sabe sorrir.


Ele nem vê telejornal pois só falam de tristeza.


- Muito bem disse o poeta. Acho que você escolheu certa sua vocação. Parabéns!


Estavam chegando ao guichê do cinema, quando – de repente o menino perguntou:

- e o senhor, o que faz mesmo na vida?

-Ah! Meu filho, eu também sou menino, sempre menino,

Pois – mesmo querendo - não sei nem consigo envelhecer.


Miguel Dias

migueld@uol.com.br

Cidade da Bahia, aos dias cinco de dezembro de 2009.

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