Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

30 de mar de 2009

Silêncio


Silêncio,
silêncio!
Agora começo a compreender,
esta fome, esta sede,
vinda de algum lugar distante (tão próximo!)

Silêncio,
busco o que não está nas palavras,
no barulho do mundo.
o que está além, além, além...

Silêncio,
para que eu escute
o que está dentro,
o que murmura esta canção...

Pode ouvir?
Está além da audição,
desse tempo, desse lugar comum,
de tudo que conhecemos.

Silêncio,
mesmo que nos tomem como loucos,
não importa, eles nada sabem,
loucos são os que vivem neste tempo,
nas palavras que nada dizem do que é verdadeiro.

Deixe-os com os seus pares,
com seus barulhos.
Vem comigo a algum lugar
descobrir este segredo,
mergulhar em todo mistério.

É lá, é lá que está,
Eu sei, você também,
o caminho verdadeiro,
que nos levará ao grande mar.

28 de mar de 2009

Versos do coração

Ouso soltar meus versos,
novamente.
Já muito os podei,
quando tenros brotos ameaçavam crescer.

Como se fossem ervas daninhas,
que não são.
Apenas os cortei porque pensei tornar assim
este coração um pouco mais compreensível.

É que meu coração é de poeta enternecido,
vaga como louco nos versos de Rumi,
é prenhe de Deus como em Francisco,
mas como compreender um coração assim ininteligível?

É nas nuvens brancas que vagam meus versos,
é no canto dos pássaros que aqueço meu coração,
é na dança das folhas ao vento que bailam meus pés,
é no céu estrelado que se perde meu olhar...

Quem sabe os deixo crescer,
maturar sonhos, mesmo impossíveis,
deixar a alma livre,
e o coração sensível, sincero!

24 de mar de 2009

Cora Coralina


Hoje não quero ser a mulher forte de atitude, a leoa sedutora, a que luta, defende, conquista, consola, abriga... Hoje eu quero deixar que a mulher sensível, delicada, romântica, frágil... seja vista e sentida!
Quero carinho, abraço, colo...Quero braços que me envolvam, protejam, abriguem. Quero um corpo onde possa me aconchegar, um ombro, uma mão que acaricie meus cabelos, olhos que vejam minhas lágrimas rolarem no meu rosto quando falo dos meus temores, medos... uma boca que me diga palavras de ânimo e esperança e que me beijem com amor e desejo! Quero olhos que vejam minha fragilidade, que me admirem por ser delicada e que não desejem que eu tenha que ser forte o tempo todo! Quero ser admirada, notada e quero que me queiram por também ter um lado frágil. Quero que me admirem por ser mulher na total essência, não só o lado leoa, mas o lado beija-flor e também flor! O lado que necessita do outro, que também precisa receber! Quero hoje a fragilidade de ser Mulher !!!


Cora Coralina (enviado por Selme Cristine)

Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé ....
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu

enviado por Jane

8 de mar de 2009

Os versos místicos do poeta sufi Rumi



Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
as almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Vem, ao ouvido te direi aonde leva esta dança.



Vê como as partículas do ar,
E os grãos de areia do deserto giram desnorteados.
Cada átomo, feliz ou miserável,
gira apaixonado, em torno do sol.




Vem, vem,
seja tu quem fores,
não importa se um infiel, um idólatra,
ou um adorador do fogo.




Vem,
nossa irmandade não é um lugar de desespero,
vem, mesmo tendo violado teu juramento cem vezes,
Vem assim mesmo!




Ninguém fala para si mesmo em voz alta,
já que somos todos um,
falemos deste outro modo.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.

Fechemos pois a boca e conversemos através da alma,
só a alma conhece o destino de tudo,
passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.



Sofreste em excesso,
por tua ignorância,
carregaste teus trapos de um lado para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos, tu em mim, eu em ti.
Eis aí o sentido de minha relação contigo,
Porque não existe, no tu e eu, nem eu, nem tu.



Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto.
enviado por Stella

3 de mar de 2009

Esta é do Jabor, sobre a Bahia, e diz tudo...


Colunista em crise não consegue voltar das férias ...

Não consigo ir embora da Bahia. Acabaram minhas férias e continuo aqui. Mesmo que eu viaje depois do Carnaval, levarei a Bahia comigo.

Não se trata de louvá-la; quero entendê-la, não com a cabeça, mas com o corpo, com as mãos, com o nariz, entender como um cego apalpa um objeto, entender por que este lugar é tão fortemente estruturado em sua aparente dispersão.

Aí, descubro que, ao contrário, a Bahia me ajuda a "me" entender. Não sou eu quem olha; a Bahia que me olha de fora, inteira, sólida, secular, a paisagem me olha e fica patente minha alienação de carioca-paulista, fica evidente meu isolamento diante da vida, eu, essa estranha coisa aflita que está sempre entre um instante e outro, sem nunca ser calmo, inconsciente e feliz como um animal.

Na Bahia, vejo-me neurótico, obsessivo, sempre em dúvida, ansioso. Gostaria de estar na praia de Buraquinho, quieto, dentro do mar, como um peixe, como parte da geografia e não fora dela. Ninguém aqui se observa vivendo. Salvador não é uma "cidade partida"como é o Rio, nem a cidade que expele seus escravos, como São Paulo,que um dia será castigada, estrangulada por sua periferia. Aqui, de alguma forma misteriosa, os pobres e negros, mesmo sem posses, são donos da cidade.

A cultura africana que chegou nos navios negreiros, entre fezes e sangue, parece ter encontrado a região "ideal" neste promontório boiando sobre o mar, batido de um vento geral, para fundar uma cidade erótica e religiosa, plantada nos cinco sentidos, fluindo do corpo e da terra. Os casarios subiram os montes, desceram em vales por necessidades dos colonos e dos escravos do passado, o espaço urbano foi desenhado pelo desejo dos homens.

A Bahia foi o lugar perfeito para a África chegar. Tudo se sincretiza, natureza e cultura. Espírito e matéria se unem como um bloco só, amores e vinganças fluem no sangue dos galos e dos bodes, esperanças queimam nas velas de sete dias, todas as coisas se amontoam num grande procedimento barroco de não deixar vazio algum, nada que sobre, que fique de fora, nada que isole matéria e gente.

Os deuses não estão no Olimpo; são terrenos e florestas, estão na rua, no dendê, dentro da planta. Consciência e realidade não se dividem, o povo e o mundo são a mesma coisa, e isso aplaca as neuroses, as alienações das mega cidades onde o homem é um pobre diabo perdido no meio dos viadutos. Como nas fotos do Mário Cravo Neto, tudo se une em um só bloco: o alvo pato e a mão negra, a mulher nua e a pedra, o nadador, o sol e a água, as frutas, os cestos e as bocas, as plantas e os pés, os búzios e os segredos, os santos e os orixás, as mãos e o tambor, a fome e a carne, o sexo e a comida.

Tenho uma espécie de inveja e saudade desta cultura integrada, dessa sociedade secreta que vejo nos olhares das pessoas falando entre si, uma língua muda que não entendo, tenho inveja da palpabilidade de suas vidas materiais, tenho inveja da grande tribo popular que adivinho nos becos e ladeiras, das pessoas que riem e dançam nas beiras de calçada, que se amam na beira do mar, tenho inveja desta cultura calma que vive no "presente", coisa que não temos mais nas "cidades partidas", sem passado e com um futuro que não cessa de não chegar.

Nesta época maníaca e americana, que se esvai sem repouso, aqui há o ritmo do prazer, a "sábia preguiça solar" de que falou Oswald e que Caymmi professa. A civilização que os escravos trouxeram criou esta "grande suavidade", este mistério sem transcendência, este cotidiano sem ansiedade, esta alegria sem meta, esta felicidade sem pressa. Aqui a cultura vem antes da lei. Aqui o soldado na guarita é um negro com passado e orixás, dentro da roupa de soldado. O bombeiro, o vendedor, o pescador, o vagabundo se comunicam e existem antes das roupagens da sociedade. Até se travestem, se fantasiam deles mesmos nos horrendo resorts caretas da burguesia, mas não perdem a alma para o diabo, defendidos pela vigilância de seus Exus.

A sinistra modernidade tenta adquirir a Bahia, possuí-la, apropriar-se das praias, das ilhas, dos panoramas. Mas mesmo o progresso urbano e tecnológico aqui fica domado de certo modo pela cultura, que resiste a esses embates.Os balneários turísticos aqui me parecem meio patéticos, meio Maiami na vivência luxuosa dos acarajés, camarões e uísques trazidos por serviçais iaôs e mordomos de cabeça feita.

Aqui não se vêem os rostos torturados dos miseráveis do Rio e São Paulo: a pobreza tem uma religião terrena costurando tudo. As festas do ano inteiro não são diversionistas, orgiásticas, para"divertir" - são para integrar. As festas têm uma religiosidade pagã, sem sacrifícios, sem asceses torturados de olhos virados para o céu. Nada sobrou do barroco europeu sofrido; prosperou o barroco gordo, pansexual, com as frutas, os anjinhos nus, os refolhos e os européis invadindo o convulsivo barroco da contra-reforma, com as curvas carnavalescas nas igrejas cheias de cariátides peitudas, sexies, gostosas, como as mulatas do Pelourinho.

Não é uma sociedade, mas um grande ritual em funcionamento. O Brasil aflito, injusto, imundo, inóspito devia aspirar a ser Bahia. Aqui dá para esquecer o jogo sujo do Congresso em Brasília, revelando a face oculta dos bandidos com imunidade, emporcalhando a democracia, aqui você não morre afogado na enchente da marginal do Tietê, nem o Ronaldinho é assaltado com revólver na cabeça.

Não conheço lugar mais naturalmente democrático. E, por isso, não consigo ir embora.Vou comprar uma camiseta "NO STRESS" e ficar bebendo um frappé de coco para sempre.


Arnaldo Jabor - Porto da Barra - Salvador

enviado por meu amigo Miguel, lá da Bahia, é claro!
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