Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

21 de fev de 2011

Da minha precoce nostalgia, por Maria Sanz Martins

Quando eu for bem velhinha, espero receber a graça de, num dia de domingo, me sentar na poltrona da biblioteca e, bebendo um cálice de Porto, dizer a minha neta:


- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu lado. Tenho umas coisas pra te contar.

E assim, dizer apontando o indicador para o alto: – O nome disso não é conselho, isso se chama corroboração!

Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas conclusões. E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e forte.

Por isso, vou colocar mais ou menos assim:

É preciso coragem para ser feliz. Seja valente.

Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e seus olhos também irão.

E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação.

Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer, mas escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai depender só de você.

Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim.

Aproveite sua casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália.

Cuide bem dos seus dentes.

Experimente, mude, corte os cabelos. Ame. Ame pra valer, mesmo que ele seja o carteiro.

Não corra o risco de envelhecer dizendo “ah, se eu tivesse feito…”

Tenha uma vida rica de vida.

(Vai que o carteiro ganha na loteria – tudo é possível, e o futuro é imprevisível.)

Viva romances de cinema, contos de fada e casos de novela.

Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor.

E tome conta sempre da sua reputação, ela é um bem inestimável. Porque sim, as pessoas comentam, reparam, e se você der chance elas inventam também detalhes desnecessários.

Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status.

A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém parecido com você, mas isso pode ser um saco!

Prefira a recomendação da natureza, que com a justificativa de aperfeiçoar os genes na reprodução, sugere que você procure alguém diferente de você. Mas para ter sucesso nessa questão, acredite no

olfato e desconfie da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.

Faça do fogão, do pente, da caneta, do papel e do armário, seus instrumentos de criação. Leia.

Pinte, desenhe, escreva. E por favor, dance, dance, dance até o fim, se não por você, o faça por mim.

Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre fizeram o melhor que puderam, e sempre farão.

Cultive os amigos. Eles são a natureza ao nosso favor e uma das formas mais raras de amor.

Não cultive as mágoas – porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.

Era só isso minha querida. Agora é a sua vez. Por favor, encha mais uma vez minha taça e me conte: como vai você?

Por Maria Sanz Martins, enviado por Maria Eliza

16 de fev de 2011

Quando canta minha alma

“Ainda no útero materno já conheci a música, música com ritmo e melodia, a percussão do coração de minha mãe e a melodia de sua respiração, eis a trilha sonora que acompanhei durante nove meses.

A harmonia destes ritmos se fez presente na meditação, agora acompanhando o meu coração tambor e a flauta doce de meu respirar. E a música se fez completa no canto arrebatador de minha essência divina a trazer bem-aventurança e graça para o viver.

Quando há música em nossa alma, o silêncio passa a ser mais interessante do que o ruído dos pensamentos desordenados tentando achar soluções para problemas imaginários.

Quando há música na alma?

Quando estou pronto a celebrar e agradecer mais do que a me lamentar.

Toda lamentação é um recurso malicioso para não enfrentar o desafio presente. Lamentando eu posso mumificar-me e empurrar para o outro aquilo que só cabe a mim resolver.

Mas a minha vida não pode ser vivida por outro, ninguém poderá realizar por mim o milagre do viver. Por tal motivo não importa muito o que os outros pensam ao meu respeito. De qualquer maneira ninguém vai saber o que minha vida é, senão eu mesmo, e olhe lá, pois descobrir o que é a vida, já é, por si só, um grande desafio.

Se estiver ocupado olhando para a vida alheia, a minha mesma passa na ânsia de algum sentido, de algum milagre que me venha resgatar de mim mesmo, incapaz que sou, melhor, que me sinto, para fazer dela algo mais interessante, belo e motivador.

Há música na alma, mas para ouví-la terei de aquietar-me, terei de interromper todos os demais ruídos, como poderia ser diferente? Se estiver em uma sala com a TV ligada, o radio sintonizado no futebol, o liquidificador funcionando, o telefone chamando, o relógio apitando o alarme sem parar, as crianças correndo de um lado para outro gritando e o cachorro latindo, como poderia ouvir a música de minha alma?

Sem dúvidas, ouvir a música interna não deveria depender da cessação dos ruídos externos, pois em realidade eles nunca param, e nem são o pior obstáculo. O desafio mesmo é fazer calar, a cachorrada interna, o relógio da pressa, o liquidificador das preocupações, o alarme do medo sem razão etc.

O ruído interior é sempre o pior, pois com os ruídos externos podemos dar um jeitinho, mas o quê fazer com o de dentro? Para onde fugiremos?

Tentamos em vão evitar ouvir o que vem de dentro, mas uma hora ou outra o coração gritará, e o preço desta desatenção para consigo mesmo não tardará a aparecer, seja na forma de angústia, de sofrimento emocional intenso ou mesmo como uma enfermidade.

A idéia é que aprofundando-nos em nosso próprio ruído interno encontraremos o silêncio, indo ao encontro dos pensamentos encontramos a origem dos mesmos. Somente a meditação poderá devolver-nos a paz e a sensível percepção interna para ouvir o canto de nossos corações.

Curiosamente toda palavra nasceu do silêncio, encontrando o silêncio, as palavras ganham nova dimensão, novos sentidos, novas funções. O desafio então não é mais fazê-las calar, mas transformá-las em música, em canto, em louvor.

De repente pensar não é mais o problema, pois há agora grande sensibilidade, e todo pensamento se converte num feixe de luz a iluminar a mente dos seres vivos em todas as diferentes dimensões.

Quando minha alma canta toda a criação canta, quando minha alma sofre toda a criação sofre, pois vemos o mundo à partir de nosso olhar interior, um Buda só vê Budas ao seu redor, o pecador só vê pecadores ao seu redor.

Minha alma canta quando agradeço pelo dom da vida, minha alma canta quando expresso meu desejo de felicidade a todos os seres, minha alma canta quando oro pela saúde universal, quando expando o meu amor para toda a existência.

Minha alma canta, dança e celebra independente do que se manifeste agora, pois tudo é auto percepção, autoconsciência, o que quer que esteja acontecendo agora, só acontece para que eu me recorde de quem EU SOU.

Então como não agradecer? Agradecendo vejo a graça descendo em forma de chuva de bênçãos sobre tudo o que vive.

A graça desce sobre todos, mas nem todos estão sensíveis para vê-la e desfrutar de suas bênçãos.

A música divina está tocando, estamos atentos a ela? Isto me faz pensar em quantos músicos maravilhosos conheci tocando em restaurantes para uma platéia inconsciente. Ocupados em comer e falar como poderiam apreciar a mal paga arte, pulsante de um coração pleno de inspiração e beleza?

A música é o amor de Deus manifesto, a manifestação material é o canto divino, um longo, harmonioso e potente expirar celestial. Um momento mais e tudo será inspirado novamente para os pulmões cósmicos, para logo voltar a surgir em forma de canto. Esta é a canção que se renova eternamente.

E porque Deus canta? Para que? Quando você canta no banheiro, você não está cantando para alguém necessariamente, você canta para você mesmo, pelo puro e simples prazer de cantar.

Ora, criaturas amantes do cantar só poderiam ser obras de um Criador também cantante! E ainda que seja por puro prazer, por ser divinal, quando Deus canta, as estrelas e todos os corpos siderais podem então fazer alegremente sua ciranda!

Os motivos do amor? Quais são? O amor acontece, mesmo quando não queremos. O que verdadeiramente é verdadeiro, profundo e natural acontece e pronto… Aceitemos ou não, acontece!
Os pássaros cantam, as cachoeiras cantam, o vento canta, as baleias cantam, os grilos cantam, o mar canta, os sapos cantam, as árvores cantam, as cigarras cantam e ainda que as histórias digam o contrário, aposto que até as formigas cantam, tudo canta, porém algumas notas silenciosas, para serem apreciadas, precisam de um ouvido mais atento e sensível.

A música da minha respiração, o pulsar do meu coração leva-me à música da minha alma.

Minha alma canta! Canta para si mesma, canta para Deus que canta através dela, canta para a platéia das estrelas, que são notas a mais na grandiosa melodia divina, canta para o Sol e a Lua, canta para os seres viventes, canta junto com tudo que canta, celebra junto com tudo o que celebra, pois somos vibrações musicais no grande mantra da existência!

Como diz o rei messias, Davi, o amado:
Cantai salmos ao Senhor, povo fiel, dê-lhes graças e invocai seu santo nome!
Vida Plena!”

Vajrananda (Diógenes Mira), enviado por Francisco Ulisses

7 de fev de 2011

Abraços

De meu coração nascem braços,
Braços fortes, ansiosos,
Que procuram, mãos, outros braços,
Que tão fortes como os meus,
Se enlaçam...
E assim, abraçados,
De mãos apertadas,
Dedos entrelaçados,
Somos todos um,
Milhares de afetos...

Como teia invisível e luminosa,
Como rede no rio da vida,
A pescar outros seres,
Noutros mares, noutros tempos,
No infinito dos céus...

Somos então só luz,
Luz que se faz em nossos corações,
Luz que desperta em nosso corpo,
Novas emoções,

Luz que é fogo e prazer...
Pois a vida busca se realizar,
E agora somos luz encarnada,
Eternamente a queimar...

Ana Liliam

Leia também a postagem "Abraços que curam" em http://venturaana.blogspot.com/
Deixar meu barco partir
nos ventos do novo tempo
vislumbrar novo horizonte
de sol nascente...
Deixar as sombras do velho tempo
antigo continente
de guerras inclementes...
Singrar por estas águas
que me separam das lágrimas
em rios derramadas...
Navegar por um mar
nunca antes navegado
sem palavras
sem coisa alguma
por onde desejares me levar...

Ana Liliam

Sonhar, de Fernando Pessoa & Sonho Impossível, com Maria Bethânia


Sonhar


Eu tenho uma espécie de dever

de dever de sonhar
de sonhar sempre,
pois, sendo mais que uma espectadora de mim mesma
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas,
invento palco, cenário
para viver o meu sonho,
entre luzes brandas e músicas invisíveis.
Sonho impossível

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite provável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã este chão que eu deixei
Por meu leito e perdão
Por saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.
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