Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

15 de fev de 2009

Parem o mundo


Parem o mundo, eu quero descer...
Quero ser pedra, imóvel, impávida,
testemunhar o dia nascer,
sentir a chuva fria cair, o vento,
secar ao sol, ver o dia partir,
quero ver as estrelas na madrugada,
nas enchentes submergir ,
ver os peixes do mar...

Parem o mundo, cansei de ser gente,
não quero falar, deixar de ser,
não mais me trocar, tomar banho,
escovar dente...

Parem o mundo, deixe-me fugir,
por um instante fugaz,
sem que ninguém dê por falta de mim,
só um instante,
eterno, imanente,
de subir aos céus,
ficar no silêncio, no escuro do universo...

Um pouco de vacuidade,
de nada ser, tudo,
saber que o que parece ser,
não é,
tudo miragem...

Só desejo acordar,
do sonho que chamam vida,
despertar no instante real
chamado Deus.

Amor e dor


Descubro o amor humano,
pura perplexidade e espanto,
descobrir meu corpo no teu,
num instante de prazer e dor.

O amor é feito da terra macia do teu corpo,
do sopro quente do teu hálito,
da água nascente de tua boca, de teu sexo,
do som ritmado do teu coração junto ao meu...

Mas também há a luz do teu olhar,
o céu que implora tua alma,
a beleza de um encontro sublime,
sagrado, consagrado no vinho e no pão,
de meu sêmen em teu chão!

E há a dor,
inconteste, velada, detestada,
saber que o tempo passou,
nos deixou exaustos e sonolentos,
levou nosso céu,
e nos deixou na terra nua das desilusões...
Haverá amor sem dor?
Sem nunca partir, te deixar,
abandonar no mundo,
corações partidos,
metades jogadas no infinito dos cosmos?
Minhas lágrimas perguntam,
enquanto te abraço,
agarro-me a tua terra,
com a força de meus braços!
Mas como resistir a dor,
se para todo amor terreno haverá um dia de despedir,
de partir, de renunciar ao mais belo amor?

do livro Missão Terra

Oásis do meu Ser


Eu sou água. Está escrito no meu horóscopo chinês. E como água me sinto cada vez mais abundante... E como água que sou me sinto cada vez mais plena, mais fresca. E é assim que me vejo buscando caminhos, escorrendo por entre pedras, cascatas, a procura do mar...

Ora sou lago límpido, de águas profundas, que refletem o firmamento... Como lago, aguardo ansiosa a chuva, o vento, a encrespar minhas águas, a mover meu fundo... Busco me desmanchar, me revolver, e ainda eu mesma sou, água.

Como água nada me retém. Evaporo-me, me transformo, me transmuto, fujo, escapo, para de novo água ser, e escorrer. Como água penetro, tomo todas as formas, porém nenhuma. Alimento, sacio todas as sedes, e nada sou, mas também tudo sou, a essência da vida. Minha mente é inquieta, como inquietas são as águas, minha mente é viajante errante, meu coração é transbordante de todas as emoções de todos os sentimentos...

Navegante errante em forma humana, por vezes me perco em braços de rio, para depois me achar e de novo me entregar nos braços da vida... Vida que é vida, sensual, clamante, porém suave como é o carinho das águas. Que também pertinente é, e até as pedras fura, transpassa em seu caminho...

Quem água é nunca pára. A mente e coração buscam sempre se integrar com o mar. O mar que é vida, que é vastidão, que é céu. O mar que é a solidão mais profunda... O mar que é comunhão, berço de toda vida, início e fim da jornada...


ABRAÇOS

De meu coração nascem braços,
Braços fortes, ansiosos,
Que procuram, mãos, outros braços,
Que tão fortes como os meus,
Se enlaçam...

E assim, abraçados,
De mãos apertadas,
Dedos entrelaçados,
Somos todos um,
Milhares de afetos...

Como teia invisível e luminosa,
Como rede no rio da vida,
A pescar outros seres,
Noutros mares, noutros tempos,
No infinito dos céus...

Somos então só luz,
Luz que se faz em nossos corações,
Luz que desperta em nosso corpo,
Novas emoções,

Luz que é fogo e prazer...
Pois a vida busca se realizar,
E agora somos luz encarnada,
Eternamente a queimar...

A POESIA QUE DANÇA EM MEU PENSAMENTO

Bailam palavras em meu pensamento,
Palavras que se unem,
Belas e pungentes,
Num balé de idéias e sentimentos.
Bailam em meu coração
Tantos amores,
Que se unem em uma só harmonia:
De vida.

Dança a vida,
Na música,
Na harmonia,
Que bate em meu coração,
E que faz a poesia...
Poesia, canção que dança,
Que faz dançar
A vida que rodopia,
Em meu coração...
Música, dança e poesia!

POESIA

Tudo tem sua hora na vida,
Até as potencialidades adormecidas
Tomam formas divertidas,
Verso, prosa, poesia!

É que a vida
Em minhas veias se inicia,
E desnuda a beleza que jazia
Em altos muros escondida....

Na luz, em alegria,
Dançam palavras e rimas,
Que caem no papel em total magia,
A cantar o amor que por ti sentia...

Perdoa as letras tão tardias,
Ninguém tem culpa desta profecia
Que só agora se realiza,
Em verso, prosa, poesia!

A vida de concreto é em demasia,
Deixa me trazer um punhado de fantasia,
Sonhos, miragens, alegoria,
Que o coração não concebia...

ALMA

Minha alma transborda,
Como um rio caudaloso,
Que desce célere a montanha,
Em busca do mar...

Minha alma quer quebrar as barragens,
Que represam as águas do meu ser,
Descer pelos vales áridos,Em busca do mar...
Minha alma quer transbordar,
A vida que em mim implora,
Pelo dia que virá,
De enfim encontrar o mar...

Deusa


Procura-se uma deusa,
Que seja ao mesmo tempo menina e mulher,
E mesmo anciã quando bem lhe aprouver!
Uma deusa que dança entre as estrelas,
Que bebe o orvalho das manhãs,
Transpira o sereno das noites,
E nua se banha no mar.
Que se veste de folhas, e enfeita os cabelos com as flores que encontrar.
Uma deusa que gosta de parir meninos e meninas de todas as raças e cores,
Que acaricia os enfermos,
Reza orações aos moribundos, e beija na boca os que morrem.
Essa deusa tem cheiro de lua quando desponta no céu,
Ela corre livre com os lobos e voa com as águias,
Depois ri quando chapinha os pés na lama!
Ela salta descalça as fogueiras,
E fagueira deixa os seios a mostra quando deixa cair a alça do vestido,
E ainda acha graça dos homens que flagram sua beleza!
Não é por maldade, que isto ela não tem,
É quase pura ingenuidade...
Ela se diverte quebrando os copos da casa,
E quando faz o bolo derramar no forno!
Ela come as migalhas com os passarinhos,
E sobe nas árvores para ver seus ninhos.
Ela está sempre dançando,
Cantarolando as canções que ouve no vento,
Beijando os que andam desatentos,
Desamarrando as fitas que vê no caminho...
Ela nem dorme, ou só finge que dorme,
Para melhor sonhar acordada...
Não sei bem o porquê,
Acho que logo vou encontrá-la,
Quem sabe na dobra de meu vestido bem guardada ...

Para ser feliz...


Ser feliz é um aprendizado,
Como a criança aprende a andar,
Como aprendemos a amar,
Como é preciso aceitar o que já não podemos mudar,
E perdoar, e perdoar, e perdoar...
Para ser feliz,
É preciso ver no mato a flor,
Na escuridão a estrela,
Na raiva a defesa,
Na dor o caminho do amor,
No feio a beleza interior,
No mal o perdão,
Na doença a redenção,
Na limitação o grande desafio,
Na dura lição a verdade,
Na queda humildade,
Na vida, na Grande Vida, o aprendizado.
Ou então a felicidade baterá a nossa porta,
E não a abriremos.
Andará ao nosso lado,
E não a reconheceremos.
Beijará nossa face,
E lhe viraremos o rosto.
E quando enfim ousar entrar em nossa casa,
Nós a pisaremos,
E destruiremos todas as chances de ser feliz...
Para ser feliz,
É preciso abrir o coração,
Ver com olhos amorosos o que a vida nos trouxe,
Seja um presente doce ou amargo,
Descobrir que além do espinho, existe a flor,
Que além da flor, há o perfume,
Além do perfume a alma.
Ser feliz é ter a compreensão que criamos
Com cada gesto, em cada palavra,
Em todo pensamento,
Em cada uma de nossas emoções,
Nossas vidas, do jeito que são.
Ser feliz é ter a serenidade
De saber que tudo passa,
Tudo morre, tudo se transforma,
E nada levamos,
A não ser a leveza,
A não ser a beleza,
De um coração aberto em flor,
Em uma singela oração de amor.

Ego x eu mesma


Enveredamos pelo caminho espiritual, colhendo lindos buquês de flores perfumadas, e minha alma por vezes deseja permanecer neste jardim florido...

E o "ser" não tem nada a ver com a mente racional e analítica onde mora, se diverte e nos distrai o ego. Mas como abdicar dele? Então eu teria que fugir de todos a quem amo, quem sabe para o monte Athos, enconder-me nas cavernas, como faz o sábio de cabelos e barbas desgrenhadas que lá vive. Terei que beber a água da chuva e dos regatos, alimentar-me do prana!

Ou quem sabe encontrar Babagi, o mestre dos mestres iogues de Yogananda, nas montanhas geladas do Himalaia, em seus anos mais que centenários, vestido só com uma tanga...
Enfim, deixar o ego é deixar este mundo belo e louco, no qual vivemos entre o absurdo e a graça, como nos diria Jean-Yves. E quem está pronto para isso? Não eu, que já me demorei tanto a aprender a amar esta vida neste planetinha lindo e azul, perdido na poeira cósmica das galáxias...
Fico por aqui, a pensar com meus botões, nele mesmo, no ego (afinal: "penso, logo existo!", é o ego quem diz!); e já que com ele não posso lutar, prometo ficar de "olho", com o olho da consciência, a não deixar que me iluda, que muito me envaideça, que critique ou que julgue quem quer que seja...

E quando com o ego (o do outro!) me cutucarem com a vara curta, desta vez com ego (o meu!) não responderei. Tratarei de entender que é o ego do mundo que toma corpo e voz no outro. Que não somemos mais dor a dor, nem mais ego ao ego, e assim ele não precisa se fortalecer nem se defender, nem se tornar cada vez maior no mundo... É que precisamos do espaço, do silêncio, da consciência, para que floresçam as flores da alma, do Self!

No mais, posso sentir aqui dentro pulsar, o "ser", a alegria, o amor, a delicadeza, a deusa desperta... Caminhar no mundo, aguardando talvez somente um momento, onde toda beleza, onde todas as flores, onde todo o coração possa reinar!
Até um dia glorioso de Luz! Paz a todos!

A pele


Por baixo desta pele, existe outra,
Outra pele, outro ser.
Por baixo desta pele existe tanta vida,
Vida que não se extingue,
Vida cheia de vida,
Cheia de alegria, plena de beleza,
Radiante de Ser!

Por baixo desta pele,
Todas as músicas, todas as canções trazidas pelo vento,
Toda luz, toda dança dança em meu Ser...

Por baixo desta pele uma deusa,
O silêncio, o não ser...
Por baixo desta pele tudo há,
Que é ser, e não ser,
Tudo prestes a vir a ser...
Tantos mistérios há,
Por baixo desta pele,
Tudo aguarda em silêncio,
Mas há tanto movimento!

Por baixo desta pele,
Um corpo dourado de luz,
E o desejo resplandescente de Ser.

SONHOS BRANCOS

Balançam as cortinas de meus sonhos,
Cortinas brancas mexidas no vento,
Que vão e vem, para onde? Não sei...

Balançam as cortinas ao vento,
O mesmo vento que embala as canções da alma,
Que fazem dançar uma parte invisível de meu ser.
Brancos sonhos,
Como nuvens de algodão doce,
Mexidos ao vento,
Em um tempo que desconheço,
Que me levam, me levarão,
Até um dia,
Aqui mesmo, aqui dentro,
Onde todos os sonhos são realidade.
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