Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

28 de fev de 2012

Me chamem de velha


A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem

 Por ELIANE BRUM

Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”.  Pensei: “roubaram a velhice”.  As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.

Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.

A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.

Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum.  Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.

A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.

Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor.  Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.

Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua.  O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.

Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está.  Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.

Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”?  Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam...”.

Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.

Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem.  O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando.  Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.

Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.

Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar.  É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.

Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.) 
Citado em www.outraspalavras.net , enviado por Leise

25 de fev de 2012

AS TEMPESTADES TRAZEM AS ÁGUIAS PARA FORA...




Quando as tempestades da vida 

Surgem escuras à minha frente,

Me recordo de maravilhosas palavras 

Que uma vez eu li. 

E digo a mim mesmo: 

Quando pairarem nuvens ameaçadoras, 

Não dobre suas asas 

E não fuja para o abrigo. 

Mas, faça como a águia, 

Abra largamente as suas asas 

E decole para bem alto, 

Acima dos problemas que a vida traz. 

Pois a águia sabe 

Que quanto mais alto voar, 

Mais tranqüilos e mais brilhantes 

Tornam-se os céus. 

E não há nada na vida 

Que Deus nos peça para carregar 

Que nós não possamos levar planando 

Com as asas da oração. 

E ao olhar para trás 

Verá que a tempestade passou, 

Você encontrará novas forças 

E ganhará coragem também. 

desconheço a autoria, enviado por Ester

21 de fev de 2012

Simplesmente mulher


por Elen de Moraes




Podes não ser a esposa tão perfeita,
A amante felina, bela e charmosa,
Namorada na medida... e gostosa!
Fêmea sensual que ao seu homem deleita...


Podes não ter perfil que se receita
Para ser mãe ou avó amorosa,
A irmã presente, a amiga preciosa,
Podes não ser filha que se sujeita...

Que importa?! És valiosa obra de arte!
Jóia invulgar que todos querem ter,
Rara flor que muitos querem colher...

Anjo guardião que está em toda a parte,
Luz que a estrada de todos alumia.
Simplesmente Mulher... E poesia!

19 de fev de 2012

Quem eu sou


Não sou especial

Mas assim eu me faço.
Não sou bonita
Mas assim eu me vejo.
Não sou jovem
Mas assim meu espírito ainda é.
Não sou a melhor
Mas me supero a cada dia.
Não possuo finanças
Mas sou rica em sentimentos.
Não vivo só de alegrias
Mas não deixo a tristeza tomar conta.
Não sou uma vencedora
Nem tão pouco uma derrotada.
Não sou um sucesso
Muito menos uma decepção.
Posso não ser pra ti prioridade
Mas não me farás de opção...

Ninguém pode me fazer mudar.
Ninguém pode me impedir de mudar.
Ninguém realmente sabe de que forma eu preciso mudar,
Nem mesmo eu,
Pelo menos até que eu comece.

Vou me lembrar de que só é preciso uma pequena mudança de direção 
Para começar a mudar a minha vida.
Não sou perfeita, mas sou excelente.

Uma jornada de mil milhas começa com um simples passo.

desconheço a autoria, enviado por Maria Jacinta

9 de fev de 2012

Sete mulheres



Foi sob a luz do luar, que ela viu muitas mulheres a caminhar. A primeira delas andava como as lobas que uivam. Como as lobas e as feras, corria solta pelos campos, e com seu cheiro atraía muitos machos ao seu redor. A eles se entregava em muitos jogos de amor. Em sua fertilidade gerava muitos filhos para cuidar.


Vivia sem pecado ou remorso, no mundo era livre para amar. Apenas seguia sua natureza, sua programação biológica escrita em código, e transcrita em seu mágico ciclo hormonal. Para esta mulher não havia conflito algum, pois as árvores, as nuvens, a terra e os animais eram seus irmãos e amigos. A esta mulher, meio loba, meio lua, chamaram de fêmea, e ela partiu para um dia retornar.


Veio a segunda mulher, e esta também pensou ser livre para amar, mas além do luar havia uma outra luz estranha a lhe iluminar. Foi sob a luz da consciência esta mulher encontrou o bem e o mal, a culpa e o medo. Seu corpo foi usado, e mesmo ultrajado, e para a liberdade que sonhou encontrou ela a paixão e o desejo que aprisiona o corpo e o coração. A vida se tornou um escuro calabouço entre o desejo e o medo. A esta mulher chamaram de Eva.


Esta mulher também partiu, e uma terceira veio ao mundo. Amou como as lobas amam, e aos homens enfeitiçou em muitos ardis de mulher meio lua, meio serpente. E se viu, um dia, enfeitiçada, enredada nas tramoias que gerou. A esta mulher chamaram de pecadora, de vil, bruxa e feiticeira. Mais uma vez encontrou a dor de amar, e em muitas fogueiras a queimaram, ou partiu pelas mãos de seus amantes.


E mais uma mulher retornou. A quarta mulher temeu o amor, cobriu o corpo de pecados, mesmo que estes lhe incendiassem o desejo. Do mundo se escondeu, e de si mesma fugiu, se negou, se esqueceu; para esquecer a dor de amar, a dor do amor. A chamaram de santa, e morreu mártir.


A quinta mulher ao mundo retornou, e trouxe com ela a dor. Entre a consciência e os uivos da loba que dentro dela ainda rugia, se viu mais uma vez enredada nos dramas do coração e do destino. Ainda assim se entregou ao amor dos homens, e sofreu, e pelas mãos do amor também morreu. E a chamaram de adúltera e traidora.


A sexta mulher não mais quis vir ao mundo. Cobriu seu rosto, seu olhar, seu corpo, em um longo pranto de dor e de espanto! Ninguém a viu e de nome algum a chamaram, mas ela se disse chamar tristeza. Muito tempo passou, até que a sétima mulher a esta terra viesse.


A última mulher enxugou seu pranto e ao mundo veio, e com ela vieram os uivos das lobas, o escuro das noites sem lua, o desejo, o medo, a culpa e o remorso, pois que havia todas as mulheres dentro de seu ser. Esta mulher ousou caminhar por entre as trevas e a luz, por entre o medo e o desejo, e descobriu a escolha de amar. Entre o pranto e a oração, descobriu a ternura. E na luz, na escolha, na oração e na ternura descobriu o amor, e neste amor encontrou a paz.


É que a última tinha vindo para salvar todas as outras, para todas as lágrimas enxugar, para todas as feridas curar e também para rir com todos os risos e brincar com todas as carícias e a todos os filhos acalentar e beijar.


Vendo tantas mulheres desfilarem, com amor e compaixão em todas se reconheceu, no ardor, no medo, na dor, no erro. Em todas elas viu um longo caminho, para encontrar o perdão e o verdadeiro amor. A si mesma chamou de Mulher.


O medo se fez coragem, o pranto oração, o desejo ternura se fez. Mesmo que ela possa claramente ouvir os uivos de uma loba, em seu coração uma nova canção toca, aquela que fala de todos os amores e de um ainda maior, acima de toda a dor, de todo o desejo, de todo o medo e de toda a escolha: a canção da Chama, da Vida que a todos habita.


Em cada mulher neste planeta tantas outras se escondem, dormem no esquecimento do tempo, que como uma corda se estica, mas também se dobra na lembrança das eras passadas. Chamam-se de muitos nomes, Marias, Madalenas, Joanas, Teresas, Anas, Mães, Amantes, Guerreiras, belas ou não, santas ou não, dançarinas do amor e da paixão, do ardor e do êxtase. Todas elas esperam o dia de novamente despertar, de chorar e se alegrar, de rir e brincar, para nunca mais morrer de amar.


Até um dia em que sobre o mundo seus passos não mais serão os passos titubeantes das mulheres-lobas que aprendem a amar, mas os passos largos e firmes de muitas Deusas encarnadas sobre a Terra... 


Ana Liliam

7 de fev de 2012

Rios Que Correm do Coração

Uma flor desabrocha,
Dentro de meu coração,
E o perfume que dela transborda,
Enche todo o espaço à minha volta...

Em minha mente,
Tomam a forma de desejos ardentes,
Mas sei que escondem,
Ainda outros mais pungentes...

O coração humano,
É feito de amor essencialmente,
Que busca amar e ser amado,
Incessantemente!

Como um rio que transborda,
Que busca ser mar,
Que leva em suas correntezas,
Todo o ser em sua grandeza!

Meu coração se enche,
De um amor desconhecido,
De um amor por mim mesma,
Até então esquecido...

Inebriada me sinto,
Convoco as forças do meu ser,
Para abrir as comportas de minha vida,
Para transbordar...

Eu sei,
É o amor,
A ponte que me liga,
À vida que eu pensava adormecida...

Queria ser para sempre esta leveza,
Pois que o amor,
Embora caudaloso,
Distribui-se suavemente,

Como orvalho que refresca,
A manhã mais quente,
E que com um abraço aquece,
A noite enternecida! 

Ana Liliam

1 de fev de 2012

Aquele substantivo...



Embora já conhecido na internet, é sempre bom lembrar este criativo e original texto!

Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE Universidade Federal de Pernambuco (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa:

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. 

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. 

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. 

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. 

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício.

 Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. 

Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. 

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
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