Letras são como estrelas, a guiar o viajante disperso, a uma praia, porto, lugar qualquer, onde possa raiar o dia, onde almas, mentes, corações, possam se encontrar, viver um espaço de beleza maior...

13 de dez de 2014

O vento e o mar


A vida, tão amiga, me ensina a amar. Em lições doces e delicadas, em intocadas flores, que perfumam de odores minha alma apaixonada. E a dor se fez luz, e na luz compreendi enfim, que a paixão é mera ilusão, projeção de um coração que incompleto pensava ser...

Mas a vida, tão amiga, clareia os recônditos do meu ser. Levanta os véus, e já não me vejo incompleta, mas perfeita. Já não me vejo em pedaços, mas inteira. Bela é a vida que nos mostra que somos como o mar: profundo e desconhecido em seus abismos submersos, que escondem tesouros e segredos a desvendar...

Meu coração de poetisa, meu coração apaixonado, encontra outras portas, outros quartos, doravante abertos, iluminados. E o vento que sopra lá fora, invade as janelas do meu ser, levanta os véus de muitos cômodos, busca caminhos esquecidos pelo tempo...

O vento que bate lá fora sopra meu rosto, meus cabelos soltos, torna a mim mesma vento a soprar. Livre como o vento eu sou. Encontro o mar, o mar de amar, o mar de ser, de me desmanchar...

O vento e o mar, estou a navegar nesta viagem errante, de terra e mar, em busca dos continentes, de praias e penhascos. Em busca dos céus coloridos de muitos sóis, das noites enluaradas, dos chamados de muitas estrelas...

Estou eu a navegar, aonde este vento, que venta em meu ser, me levar...

Ana Liliam

11 de dez de 2014

Mistérios

No silêncio de minha alma quero hoje penetrar...
No recôndito mais escuro descansar.
E quem sabe ouvir uma silenciosa voz a me falar,
De tudo que não sei,
De tudo que aguardo,
Para um instante de despertar.

São mistérios de minha alma,
Que anseio perscrutar.

O silêncio e a escuridão,
São como a noite morna,
Que embala um coração.
São como uma cantiga amiga,
Que faz do universo uma oração.

São tantos os mistérios
Que busco desvelar.

Não sei como eu sei,
Que a vida em muitas vozes me falará,
De mistérios, no silêncio e na noite,
E tudo mais se calará,
Até o dia raiar,
E não mais me encontrar.

São mistérios,
A desvendar.

Ana Liliam

19 de nov de 2014

O borrão existencial

Bem me lembro de um dia de sol e brisa leve nos gramados da Unipaz.
Sob a a sombra das árvores Myrtes nos pediu que pintássemos numa grande folha de papel.
Ela era adorável! Nos disse para sermos como crianças pequenas que se divertem, e não foi preciso que pedisse duas vezes! Minha menina de seis anos tomou conta de mim, e usei as mãos, os braços, cotovelos e pés como pincéis!
Usei o preto, e depois o branco, e mais branco, até que tudo ficou como uma mancha cinza indefinível. Então colei florzinhas, galhos, folhas e terra sobre o borrão magnífico.
Distribuímos os trabalhos sobre a grama, e Myrtes pediu que olhássemos todos e escolhêssemos aquele que nos chamasse mais a atenção.
Os olhos de muitos de dirigiram ao meu borrão, e não foram elogios não, disseram que era horrível, que incomodava! Mas a criança dentro de mim estava exultante, apenas por ter meu trabalho/estrago escolhido!
Myrtes disse que representava o caos, o que não era ruim, pois o caos antecedia uma nova ordem no universo...
Naquele momento que eu vivia, concordei com ela. Poucos anos depois ela partiu desta vida nas mãos de um câncer implacável.
Hoje me lembro novamente desta história, divirto-me com ela, mas mais que isto, percebo que alguns dias são como o borrão cinza de meu desenho de criança livre. Não se trata mais do caos, mas de um espaço/tempo longe de tudo que conhecemos.
Divirto-me em nada fazer, em meio a tudo a fazer. O nada me atrai como nada mais pode me atrair.
Sento-me no meio desta mancha cinza e informe, entre o tempo e o não tempo, entre o fazer e o não fazer, entre o ser e o não ser...
É um luxo! Desperdiçar o tempo em nada. Mas aqui há tanta paz, tanto brilho e luz! Um gosto acridoce de morte, um gosto de tinta borrada...
Talvez seja a claraluz, este instante mergulhado em uma mancha de tinta, perdido do tempo...
Talvez a possibilidade fecunda de tudo o que está por vir...

Assim caminho entre dois mundo, o bardo, o limbo, entre o criado e o incriado, um momento entre o nascer e o morrer, em perfeita serenidade!

Ana Liliam

Carta de amor inacabada, para um amor inacabado

Esta é apenas para dizer que sinto sua falta,
como um céu sem lua,
uma manhã sem sol,
meu coração chora de saudades tuas...
Da última vez que nos vimos
nos despedimos num beijo sem palavras,
e não sei se foi adeus,
não sei se foi até logo.
Os dias passam,
correm as semanas,
e já não te encontro mais...
Apenas queria poder te ver,
sorrir para você,
encontrar teu olhar no meu,
e quem sabe ter de ti um abraço.
Bem eu sei
que teus beijos não suporto,
tomam de mim um amor
que não posso dar...
E mesmo que não me leias,
já não importa,
escrevo para consolar meu coração machucado,
pois esta é apenas mais uma história de amor
inacabado...

12 de nov de 2014

O Brasil, por Olivier Teboul

O francês Olivier Teboul mudou-se para Belo Horizonte há um pouco mais de um ano. Desde então, peculiaridades culturais e linguísticas têm chamado a sua atenção e, de uma forma muito divertida, ele listou em 65 itens em seu blog. Confira:

Aqui são umas das minhas observações, às vezes um pouco exageradas, sobre o Brasil. Nada sério…

1. Aqui no Brasil, tudo se organiza em fila: fila para pagar, fila para pedir, fila para entrar, fila para sair e fila para esperar a próxima fila. E duas pessoas ja bastam para constituir uma fila.

2. Aqui no Brasil, o ano começa “depois do Carnaval”.

3. Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos. No MacDonalds, hamburger se come dentro de um guardanapo. Toda mesa de bar, restaurante ou lanchonete tem um distribuidor de guardanapos e de palitos. Mas esses guardanapos são quase de plastico, nada de suave ou agradável. O objetivo não é de limpar suas mãos ou sua boca mas é de pegar a comida com as mãos sem deixar papel nem na comida nem nas mãos.

4. Aqui no Brasil tudo é gay (ou ‘viado’). Beber chá: é gay. Pedir um coca zero: é gay. Jogar vólei: é gay. Beber vinho: é gay. Não gostar de futebol: é gay. Ser francês: é gay, ser gaúcho: gay, ser mineiro: gay. Prestar atenção em como se vestir: é gay. Não falar que algo é gay: também é gay.

5. Aqui no Brasil, os homens não sabem fazer nada das tarefas do dia a dia: não sabem faxinar, nem usar uma maquina de lavar. Não sabem cozinhar, nem a nível de sobrevivência: fazer arroz ou massa. Não podem consertar um botão de camisa. Também não sabem coisas que estão consideradas fora como extremamente masculinas como trocar uma roda de carro. Fui realmente criado em outro mundo…

6. Aqui no Brasil, sinais exteriores de riqueza são muito comuns: carros importados, restaurantes caríssimos em bairros chiques, clubes seletivos cujos cotas atingem valores estratosféricas.

7. Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.

8. Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camisetas qualquer é comum. Comum também é sair de roupas de esportes, mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay.

9. Aqui no Brasil, o cliente não pede cerveja para o garçon, o garçon traz a cerveja de qualquer jeito.

10. Aqui no Brasil, todo mundo torce para um time, de perto ou de longe.

11. Aqui no Brasil, sempre tem um padre falando na televisão ou na radio.

12. Aqui no Brasil, a vida vai devagar. É normal estar preso no trânsito o dia todo. Mas não durma no semáforo não. Ai tem que ser rápido e sair até antes do semáforo passar no verde. Não depende se tiver muitas pessoas atrás, nem se estiverem atrasados. Também é normal ficar 10 minutos na fila do supermercado embora que tenha só uma pessoa na sua frente. Ai demora para passar os artigos, e muitas vezes a pessoa do caixa tem que digitar os códigos de barra na mão ou pedir ajuda para outro funcionário para achar o preço de um artigo. Mas, na hora de retirar o cartão de crédito, ai tem que ser rápido. Não é brincadeira, se não retirar o cartão na hora, a mesma moça da caixa que tomou 10 minutos para 10 artigos vai falar agressivamente para você agilizar: “pode retirar o cartão!”.

13. Aqui no Brasil, os chineses são japoneses.

14. Aqui no Brasil, a música faz parte da vida. Qualquer lugar tem música ao vivo. Muitos brasileiros sabem tocar violão embora não consideram que toquem se perguntar para eles. Têm músicos talentosos, mas não tocam as musicas deles. Bares estão cheios de bandas de cover.

15. Aqui no Brasil, a política não funciona só na dimensão esquerda – direita. Brasil é um pais de esquerda em vários aspectos e de direita em outros. Por exemplo, se pode perder seu emprego de um dia para outro quase sem aviso. Tem uma diferença enorme entre os pobres e os ricos. Ganhar vinte vezes o salario mínimo é bastante comum, e ganhar o salário minimo ainda mais. As crianças de classe media ou alta estudam quase todos em escolas particulares, as igrejas tem um impacto muito importante sobre decisões políticas. E de outro lado, existe um sistema de saúde público, o estado tem muitas empresas, tem muitos funcionários públicos, tem bastante ajuda para erradicar a pobreza em regiões menos desenvolvidas do país. O mesmo governo é uma mistura de política conservadora, liberal e socialista.

16. Aqui no Brasil, é comum conhecer alguém, bater um papo, falar “a gente se vê, vamos combinar, ta?”, e nem trocar telefone.

17. Aqui no Brasil, a palavra “aparecer” em geral significa, “não aparecer”. Exemplo: “Vou aparecer mais tarde” significa na pratica “não vou não”.

18. Aqui no Brasil, o clima é muito bom. Tem bastante sol, não está frio, todas as condições estão reunidas para poder curtir atividades fora. Porém, os domingos, se quiser encontrar uma alma viva no meio da tarde, tem que ir ao shopping. As ruas estão as moscas, mas os shopping estão lotados. Shopping é a coisa mais sem graça do Brasil.

19. Aqui no Brasil, novela é mais importante do que cinema. Mas o cinema nacional é bom.

20. Aqui no Brasil, não falta espaço. Falam que o país tem dimensões continentais. E é verdade, daria para caber a humanidade inteira no Brasil. Mas então se tiver tanto espaço, por que é que as garagens dos prédios são tão estreitos? Porque existe até o conceito de vaga presa?

21. Aqui no Brasil, comida salgada é muito salgada e comida dolce é muito doce. Até comida é muita comida.

22. Aqui no Brasil, se produz o melhor café do mundo e em grandes quantidades. Uma pena que em geral se prepare muito mal e cheio de açúcar.

23. Aqui no Brasil, praias bonitas não faltam. Porém, a maioria dos brasileiros viajam todos para as mesmas praias, Búzios, Porto de Galinhas, Jericoacoara, etc.

24. Aqui no Brasil, futebol é quase religião e cada time uma capela.

25. Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter trânsito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros.

26. Aqui no Brasil, esporte é ou academia ou futebol. Uma pena que só o futebol seja olímpico.

27. Aqui no Brasil, existe três padrões de tomadas. Vai entender porque…

28. Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. É ‘normal’.

29. Aqui no Brasil, não tem o conceito de refeição com entrada, prato principal, queijo, e sobremesa separados. Em geral se faz um prato com tudo: verdura, carne, queijo, arroz e feijão. Dai sempre acaba comendo uma mistura de todo.

30. Aqui no Brasil, o Deus esta muito presente… pelo menos na linguagem: ‘vai com o Deus’, ‘se Deus quiser’, ‘Deus me livre’, ‘ai meu Deus’, ‘graças a Deus’, ‘pelo amor de Deus’. Ainda bem que ele é Brasileiro.

31. Aqui no Brasil, cada vez que ouço a palavra ‘Blitz’, tenho a impressão que a Alemanha vai invadir de novo. Reminiscência da consciência coletiva francesa…

32. Aqui no Brasil, país com muita ascendência italiana, tem uma lei que se chama ‘lei do silêncio’. Que mau gosto! Parece que esqueceram que la na Itália, a lei do silêncio (também chamada de “omerta”) se refere a uma pratica da mafia que se vinga das pessoas que denunciam suas atividades criminais.

33. Aqui no Brasil, se acha tudo tipo de nomes, e muitos nomes americanos abrasileirados: Gilson, Rickson, Denilson, Maicon, etc.

34. Aqui no Brasil, quando comprar tem que negociar.

35. Aqui no Brasil, os homens se abraçam muito. Mas não é só um abraço: se abraça, se toca os ombros, a barriga ou as costas. Mas nunca se beija. Isso também é gay.

36. Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : “Ta bom?”, “obrigado”, “desculpa”.

37. Aqui no Brasil, quando um filme passa na televisão, não passa uma vez só. Se perder pode ficar tranquilo que vai passar mais umas dez outras vezes nos próximos dias. Assim já vi “Hitch” umas quatro vezes sem querer assistir nenhuma.

38. Aqui no Brasil, tem um jeito estranho de falar coisas muito comuns. Por exemplo, quando encontrar uma pessoa, pode falar “bom dia”, mas também se fala “e ai?”. E ai o que? Parece uma frase abortada. Uma resposta correta e comum a “obrigado” é “imagina”. Imagina o que? Talvez eu quem falte de imaginação.

39. Aqui no Brasil, todo mundo gosta de pipoca e de cachorro quente. Não entendo.

40. Aqui no Brasil, quando você tem algo pra falar, é bom avisar que vai falar antes de falar. Assim, se ouvi muito: “vou te falar uma coisa”, “deixa te falar uma coisa”, “é o seguinte”, e até o meu preferido: “olha só pra você ver”. Obrigado por me avisar, já tinha esquecido para que tinha olhos.

41. Aqui no Brasil, as lojas, os negócios e os lugares sempre acham um jeito de se vender como o melhor. Já comi em vários ‘melhor bufe da cidade’ na mesma cidade. Outro superativo de cara de pau é ‘o maior da América latina’.

42. Aqui no Brasil, tem uma relação ambígua e assimétrica com a América latina. A cultura do resto da América latina não entra no Brasil, mas a cultura brasileira se exporta la. Poucos são os brasileiros que conhecem artistas argentinos ou colombianos, poucos são os brasileiros que vão de ferias na América latina (a não ser Buenos Aires ou o Machu Pichu), mas eles em geral visitaram mais países europeus do que eu. O Brasil às vezes parece uma ilha gigante na América latina, embora que tenha uma fronteira com quase todos os outros países do continente.

43. Aqui no Brasil, relacionamentos são codificados e cada etapa tem um rótulo: peguete, ficante, namorada, noiva, esposa, (ex-mulher…). Amor com rótulos.

44. Aqui no Brasil, a comida é: arroz, feijão e mais alguma coisa.

45. Aqui no Brasil, o povo é muito receptivo. É natural acolher alguém novo no seu grupo de amigos. Isso faz a maior diferencia do mundo. Obrigado brasileiros.

46. Aqui no Brasil, os brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui, é assim, é Brasil. Tem um sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito dos Estados Unidos. To esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.

47. Aqui no Brasil, de vez em quando no vocabulário aparece uma palavra francesa. Por exemplo ‘petit gâteau’. Mas para ser entendido, tem que falar essas palavras com o sotaque local. Faz sentido, mas não deixa de ser esquisito.

48. Aqui no Brasil, tem um organismo chamado o DETRAN. Nem quero falar disso não, não saberia por onde começar…

49. Aqui no Brasil, dentro dos carros, sempre tem uma sacola de tecido no alavanca de mudança pra colocar o lixo.

50. Aqui no Brasil, os brasileiros escovam os dentes no escritório depois do almoço.

51. Aqui no Brasil, se limpa o chão com esse tipo de álcool que parece uma geleia.

52. Aqui no Brasil, há versão digital de ‘fazer fila’ e ‘digitar códigos’. No banco, pra tirar dinheiro tem dois códigos. No supermercado, o leitor de código de barra estando funcionando mal tem que digitar os códigos dos produtos. Mas os melhores são os boletos para pagar na internet: uns 50 dígitos. Sempre erro um pelo menos. Demora.

53. Aqui no Brasil, o sistema sempre tá “fora do ar”. Qualquer sistema, principalmente os terminais de pagamento de cartão de credito.

54. Aqui no Brasil, tem um lugar chamado cartório. Grande invenção para ser roubado direito e perder seu tempo durante horas para tarefas como certificar uma copia (que o funcionário nem vai olhar) e conferir que sua firma é sua firma.

55. Aqui no Brasil, parece que a profissão onde as pessoas são mais felizes é coletor de lixo. Eles estão sempre empolgados, correndo atrás do caminhão como se fosse um trilho do carnaval. Eles também são atletas. Tens a energia de correr, jogar as sacolas, gritar, e ainda falar com as mulheres passando na rua.

56. Aqui no Brasil, pode pedir a metade da pizza de um sabor e a metade de outro. Ideia simples e genial.

57. Aqui no Brasil, não tem água quente nas casas. Dai tem aquele sistema muito esperto que é o chuveiro que aquece a água. Só tem um porém: Ou tem água quente ou tem um vazão bom. Tem que escolher porque não da para ter os dois.

58. Aqui no Brasil, as pessoas saem da casa dos pais quando casam. Assim tem bastante pessoas de 30 anos ou mais morando com os pais.

59. Aqui no Brasil, tem três palavras para mandioca: mandioca, aipim e macaxeira. Lá na França nem existe mandioca.


60. Aqui no Brasil, tem o número de telefone tem um DDD e também um número de operadora. Uma complicação a mais que pode virar a maior confusão.

61. Aqui no Brasil, quando encontrar com uma pessoa, se fala: “Beleza?” e a resposta pode ser “Jóia”. Traduzindo numa outra língua, parece que faz pouco sentido, ou parece um diálogo entre o Dalai-Lama e um discípulo dele. Por exemplo em inglês: “The beauty? – The joy”. Como se fosse um duelo filosófico de conceitos abstratos.

62. Aqui no Brasil, a torneira sempre pinga.

63. Aqui no Brasil, no táxi, nunca se paga o que esta escrito. Ou se aproxima para cima ou para baixo.

64. Aqui no Brasil, marcar um encontro às 20:00 significa as 21:00 ou depois. Principalmente se tiver muitas pessoas envolvidas.

65. Aqui em Belo Horizonte, e a menor cidade grande do mundo. 5 milhões de habitantes, mas todo mundo conhece todo mundo. Por isso que se fala que BH é um ovo. Eu diria que é um ovo frito. Assim fica mais mineiro.

bônus:

66. Aqui no Brasil, as pessoas vão a rua protestar contra o governo e depois reelegem o mesmo. 

enviado por Leise   

15 de set de 2014

JANES MORREU


Comentar eu sei que vão,
Coisas boas lembrarão,
Era alegre, sempre contente,
Agradável com a gente,
Uma pessoa útil,
Vaidosa, não fútil.
Morreu de tanto pensar...
De tanto filosofar...
Trabalhava com prazer,
Dava gosto de se ver,
Morreu muito valente,
Segurava um pente,
A cabeça pensando...
Cabelos penteando...
Na verdade eu não morri,
Suspirei lá, cheguei aqui.
Cheguei na eternidade,
Onde não se tem idade,
Juventude permanente,
O tempo a gente nem sente.
Sinto-me elegante
Num vestido esvoaçante,
Ao entrar esbaforida
No mundo da nova vida,
Esbarro na maçaneta
Da porta desse planeta
Onde agora vou morar,
Sei que vou me adaptar.
Alguém de repente gritou:
(Até mesmo me assustou)
- Ela morreu de vermelho!
Quero me ver no espelho,
Não é que eu seja fútil,
Mas, perguntei ao arcanjo,
(Grandalhão, não podia ser anjo)
Onde aqui posso me olhar?
Venha você vai gostar.
Veja, uau nada mal,
Me vi bela e bem vestida,
Cara de bem sucedida,
Estava de vermelho,
Me confirmou o espelho,
E sorrindo p’ro Gabriel,
Sei lá, pode ser Rafael,
Como aqui me arranjo
Belo São Miguel,
Manto azul da cor do céu,
Sorridente e elegante disse:
- Você aqui vai se dar bem,
Deixou-me bem confiante
Entrei toda faceira,
Daquela minha maneira.
Como é fácil morrer,
Agora sim eu vou viver.

Autora Janes Sereno Lopes
Do livro Cantada Feminina - A Poesia de Uma Vida;
Editora Clube dos Autores, 20
Faleceu neste sábado, dia 13 de setembro de 2014

Enviado por Regina Valéria

29 de jul de 2014

Carta de Amor - Oásis de Bethânia



Não mexe comigo, que eu não ando só,
Eu não ando só, que eu não ando só.
Não mexe não! (2x)

Eu tenho Zumbi, Besouro o chefe dos tupis,
Sou tupinambá, tenho os erês, caboclo boiadeiro,
Mãos de cura, morubichabas, cocares, arco-íris,
Zarabatanas, curare, flechas e altares.
À velocidade da luz, no escuro da mata escura, o breu o silêncio a espera.
Eu tenho Jesus, Maria e José, todos os pajés em minha companhia,
O Menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos, o poeta me contou.

Não mexe comigo, que eu não ando só,
Eu não ando só, que eu não ando só.
Não mexe não! (2x)

Não misturo, não me dobro.
A rainha do mar anda de mãos dadas comigo,
Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim.
É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda meu corpo,
Garante meu sangue, minha garganta.
O veneno do mal não acha passagem
E em meu coração Maria acende sua luz e me aponta o Caminho.
Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã, giro o mundo, viro, reviro.
Tô no recôncavo, tô em Fez.
Voo entre as estrelas, brinco de ser uma, traço o cruzeiro do sul com a tocha da fogueira de João menino, rezo com as três Marias, vou além, me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas, durmo na forja de Ogum, mergulho no calor da lava dos vulcões, corpo vivo de Xangô.

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou, que o santo me leva
É por onde eu vou, que o santo me leva (2x)

Medo não me alcança.
No deserto me acho, faço cobra morder o rabo, escorpião vira pirilampo.
Meus pés recebem bálsamos, unguentos suaves das mãos de Maria
Irmã de Marta e Lázaro, no Oásis de Bethânia.
Pessoa que eu ando só, atente ao tempo. Não começa, nem termina, é nunca é sempre.
É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra, fulmina o injusto, deixa nua a Justiça.

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão,
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não (2x)

Onde vai valente?
Você secou, seus olhos insones secaram, não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira.
Seus ouvidos se fecharam à qualquer música, qualquer som, nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe.
Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa.
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano.
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma.
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo.

O que é teu já tá guardado.
Não sou eu quem vou lhe dar,
Não sou eu quem vou lhe dar,
Não sou eu quem vou lhe dar.(2x)

Eu posso engolir você, só pra cuspir depois.
Minha fome é matéria que você não alcança.
Desde o leite do peito de minha mãe, até o sem fim dos versos, versos, versos, que brotam do poeta em toda poesia sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi.
Se choro, quando choro, e minha lágrima cai, é pra regar o capim que alimenta a vida, chorando eu refaço as nascentes que você secou.
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio.
Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar.
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi, cruzam o meu peito.
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só(2x)
Não mexe comigo!




Link: http://www.vagalume.com.br/maria-bethania/carta-de-amor.html#ixzz38uLC7000

6 de jul de 2014

DERSU UZALA NA COPA


José Ribamar Bessa Freire
22/06/2014 - Diário do Amazonas

No futebol “a bola é um reles, um ridículo detalhe” – escreve Nelson Rodrigues, para quem o que interessa é “o ser humano por trás da bola”. O que está em jogo no gramado, portanto,“não é a diversão lúdica, mas a complexidade da existência”. Se for assim, se Nelson tem razão como quer o cronista Joaquim Ferreira dos Santos, então o campeão mundial da Copa já é o Japão, que deu um show de vida lá na Arena Pernambuco contra a Costa do Marfim e, depois, na Arena das Dunas, em Natal, contra a Grécia.

O Japão perdeu um jogo e empatou o outro dentro do campo, mas nas arquibancadas ganhou os dois de 10 x 0. As imagens reproduzidas nas redes sociais não deixam dúvidas. Enquanto torcedores do Brasil e de outros países se retiravam dos estádios, deixando montanhas de lixo, sem sequer olhar para trás, os japoneses recolhiam discretamente garrafas e copos de plástico, papel, bandejinhas de isopor, latas de cervejas e de refrigerantes, canudinhos, restos de alimentos, embalagens usadas, enfim todo lixo produzido por eles.

Esse gesto civilizatório foi o legado mais eloquente da Copa. Com o exemplo, o japonês ensina ao mundo como tratar com respeito e civilidade o espaço público, como se relacionar com o meio ambiente e com os outros habitantes do planeta. A coleta do lixo, feita em sacos com a imagem impressa do sol nascente, foi uma lição de ética e de cidadania. Lembrei cena antológica de rara beleza do filme Dersu Uzala dirigidopelo cineasta japonês Akira Kurosawa, em 1975, baseado no diário de um capitão russo. Na torcida nipônica – diria Nelson Rodrigues – todos eram Dersu Uzala.

O chibé repartido

O filme conta a história de uma expedição científica do exército tzarista pela bacia do rio Usurri, entre 1902 e 1907, comandada pelo capitão Vladimir Arsenyev, com a finalidade de classificar as espécies existentes nas estepes da Sibéria e realizar trabalhos de topografia. O capitão faz amizade com um caçador nativo, Dersu Uzala, um velho sábio que trata o sol, as estrelas, a água, o fogo, o vento, a neve, as árvores e os animais como pessoas. Tal qual um tcheramoiguarani, ele ouve todas essas “pessoas” que vivem na taiga siberiana – a maior floresta fria do mundo - e conversa com elas.

Akira Kurosawa vai mostrando como se tece a amizade do capitão russo com o caçador, que lhe serve de guia não apenas pelas montanhas da Mongólia, mas também pelos sendeiros da vida. Depois de uma tempestade de neve, os dois conseguem se refugiar numa cabana no meio da floresta, onde descansam. No dia seguinte, antes de partirem, Dersu, o homem da floresta, abastece o fogão com lenha, separa um pouco de sal e estoca alimentos não perecíveis na cabana. Divide assim o pouco que tem para surpresa do capitão russo, o homem da cidade, que lhe diz:

- Dersu, isso é um desperdício. É inútil deixar mantimentos aqui, nós nunca mais voltaremos a esse lugar.

Quase todo semestre passo esse filme em sala de aula e todas as vezes me comove a cena, quando o caçador, então, explica que não é para eles dois, mas para uma pessoa qualquer, um eventual viajante, desconhecido, que chegue ali cansado e com frio, em busca de abrigo, de calor e de alimento. Compartilhar o pão não necessariamente para retribuir o que eles tinham encontrado, mas pelo prazer da partilha.

O capitão russo, um homem de ciência, civilizado, com escolaridade, fica no meio do tiroteio, perplexo e dividido entre, de um lado, o princípio da “farinha pouca meu pirão primeiro” que ele traz do mundo urbano e, de outro, o preceito do pirão compartilhado, que é único sinal humano de vida, como canta o poeta Aníbal Beça num haicai: “Apenas num gesto / o homem é capaz de vida - / chibé repartido”.

Não vai haver lixo

A ética da solidariedade, do desprendimento, do pensar no outro está presente tanto no comportamento do velho caçador desescolarizado, que vive no mundo da oralidade e que detém os conhecimentos da vida, quanto na coleta silenciosa do lixo realizada pelos torcedores nipônicos.

O cineasta japonês Akira Kurosawa rodou as cenas de Dersu Uzala em 1974, em condições adversas, depois de haver tentado o suicídio três anos antes, cortando a própria garganta e os pulsos numa forte crise de depressão. Estava desencantado com o ser humano. Nesse contexto, o filme teve o efeito daquele poema de Allen Ginsberg: uma florzinha solitária desabrochando em cima de um monte de merda. É uma reconciliação com a vida, um canto de esperança, que desperta sentimento similar ao provocado pelas imagens dos japoneses coletando o lixo no estádio.

- Eu sou bra-si-lei-ro, com mui-to or-gu-lho, com mui-to a-moooor – grita a nossa torcida embalada para a guerra. Resta saber – isso não é explicitado - do que é que sentimos orgulho. Numa sociedade patriarcal como a brasileira, parasitária, tatuada por quatro séculos de escravidão, estamos acostumados a emporcalhar tudo, ordenando que garis limpem nossa sujeira. Nossas ruas com bueiros entupidos e os banheiros e salas de aula de nossas universidades públicas são testemunhas disso. Lá, o exército do “pessoal de limpeza” trava diariamente uma batalha perdida, registrando o rotundo fracasso da escola.

- Somos milhões em ação. Todos juntos, vamos pra frente, Brasil. Salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão!

Sem patriotadas, o lema dos japoneses, talvez muito mais significativo do que “não vai haver copa”, foi o silencioso “não vai haver lixo”. A corrente nipônica pra frente nos deu uma lição, que já rendeu os primeiros frutos. Na Fifa Fun Fest segunda-feira, em Copacabana, no Rio, turistas alemães, espelhados no exemplo vindo do Oriente, não apenas recolheram o lixo da praia, mas incentivaram outros frequentadores a ajudá-los.

Esse gesto de extrema delicadeza e refinamento, embora solitário, mostra que civilização não é abrir estradas, construir usinas, erguer pontes e viadutos, fabricar aviões, automóveis e robôs, clonar seres vivos. É saber se relacionar com o outro: gente, planta, animal, meio ambiente. É a qualidade dos gestos que torna a condição humana possível. Enquanto houver alguém juntando o lixo e nos deixando envergonhados de nossa imundície, o mundo não está totalmente perdido. Uma florzinha brota no esterco.

Foi um ato singelo, mas que renova nossas esperanças na espécie humana e no futuro do planeta. A bola, efetivamente, é um reles detalhe. Torcida japonesa, por despertar o Dersu Uzala que existe dentro de cada um de nós, domô arigatô gozaimasu. 

 enviado por Carlos



2 de jul de 2014


Se a humanidade anda cega
por cédulas monetárias aderidas aos olhos
Se como parte do planeta somos o cancro
Se com toda possibilidade tecnológica
de congregação e congraçamento
Somos as guerras que promovemos e a exclusão massificada
Eu no meu despertar de cada manhã quero me abrir para minha fé
Ter fé que posso superar toda essa opressão
e não perder de vista o horizonte dos meus anseios
e a luz que ilumina o meu caminho de busca
Busca de um abraço do mundo onde outros como eu
vivem um mundo livre da opressão
por viverem seus sonhos
de viverem por um mundo
de integração com a natureza
e as forças cósmicas.

O sol bate em minha janela
Forro a cama e faço meus exercícios
Sento a mesa e desabafo sobre o teclado
Medito orientando-me para comungar com o Divino
Eu me transformo a cada instante para que o mundo se transforme
A minha dor, é a dor de minha mãe, mãe terra...
Como perdoar por que não sabem o que fazem?
O perdão é o permanente alerta,
Até que o fim não tenha mais volta...
Quem sabe há outros planetas, outras esferas
Outras dimensões onde nós nos encontramos.
Mas agora, eu quero viver o que há para viver.
E quero comungar com o máximo de irmãos
que eu puder encontrar...neste caminho de transformação.

É pela cura que precisamos orar,
é pelo bendito corpo de cada dia que precisamos nos erguer
é pela beleza do espírito que precisamos vencer a abulia
é pela verdade do amor que precisamos ser verdadeiros
é pela glória do encontro que precisamos deixar o nosso egoísmo
é pela fluídez do prazer que devemos sorrir ao próximo
e dar a mão aos que nos amam.

A vida por vêzes parece dar um nó,
e é preciso ter coragem de ser simples
e seguir conquistando passo a passo
de cada desamarro de laçada
não dá para somente se lamentar
e ceder a fadiga dos dedos e das unhas
a derrota é não tentar
a vitória é se apresentar

O sol vai entrando pela minha janela,
o inverno foi diferente, como está diferente
todo o clima em todas as regiões
Há muito gelo escorregadio nas calçadas
Agora é preciso caminhar sempre com muito cuidado.
Eu oro por mais fé, eu mergulho num resgate do meu contato
com as forças cósmicas.
Eu olho para dentro para me reconhecer novamente
Eu abandono o medo, seguro na mão Divina e vou para o dia.
É bom desabafar... E bom dia!

OSMAR DIAS

1 de jul de 2014

Anjos

Anjos passeiam
Livremente
E voam leves
Sobre nossas casas
Onde descansam as asas
Enquanto nos vigiam...
Olham a Lua
E vestem o céu
De estrelas.
Na madrugada
Caçam borboletas.
Quando vem a aurora
Pincelam jardins
Amadurecem amoras...
Depois se vestem de amigos
Desses que a gente adora.
Anjos nunca vão embora.

http://meuamorvirtual.loveblog.com.br/511523/Anjos/

30 de jun de 2014

O futebol como religião secular


Leonardo Boff, teólogo e escritor

A presente Copa Mundial de Futebol que ora se realiza no Brasi, bem como outros grandes eventos futebolísticos, assumem características, próprias das religiões. Para milhões de pessoas o futebol, o esporte que possivelmente mais mobiliza no mundo, ocupou o lugar que comumente detinha a religião. Estudiosos da religião, somente para citar dois importantes como Emile Durkheim e Lucien Goldmann, sustentam que “a religião não é um sistema de idéias; é antes um sistema de forças que mobilizam as pessoas até levá-las à mais alta exaltação”(Durckheim). A fé vem sempre acoplada à religião. Esse mesmo clássico afirma em seu famoso “As formas elementares da vida religiosa: ”A fé é antes de tudo calor, vida, entusiasmo, exaltação de toda a atividade mental, transporte do indivíduo para além de si mesmo”(p.607). E conclui Lucien Goldamnn, sociólogo da religião e marxista pascalino:”crer é apostar que a vida e a história tem sentido; o absurdo existe mas ele não prevalece”.

Ora, se bem reparmos o futebol para muita gente preenche as características religiosas: fé, entusiasmo, calor, exaltação, um campo de força e uma permanente aposta de que seu time vai triunfar.

A espetacularização da abertura dos jogos lembra uma grande celebração religiosa, carregada de reverência, respeito, silêncio, seguido de ruidoso aplauso e gritos de entusiasmo. Ritualizações sofisticadas, com músicas e encenações das várias culturas presentes no país, apresentação de símbolos do futebol (estandartes e bandeiras), especialmente a taça que funciona como um verdadeiro cálice sagrado, um santo Graal buscado por todos. E há, valha o respeito, a bola que funciona como uma espécie de hóstia que é comungada por todos.

No futebol como na religião, tomemos a católica como referência, existem os onze apóstolos (Judas não conta) que são os onze jogadores, enviados para representar o país; os santos referenciais como Pelé, Garrincha, Beckenbauer e outros; existe outrossim um Papa que é o presidente da Fifa, dotado de poderes quase infalíveis. Vem cercado de cardeais que constituem a comissão técnica responsável pelo evento. Seguem os arcebispos e bispos que são os coordenadores nacionais da Copa. Em seguida aparece a casta sacerdotal dos treinadores, estes portadores de especial poder sacramental de colocar, confirmar e tirar jogadores. Depois emergem os diáconos que formam o corpo dos juízes, mestres-teólogos da ortodoxia, vale dizer, das regras do jogo e que fazem o trabalho concreto da condução da partida. Por fim vem os coroinhas, os bandeirinhas que ajudam os diáconos.

O desenrolar de uma partida suscita fenômenos que ocorrem também na religião: gritam-se jaculatórias (bordões), chora-se de comoção, fazem-se rezas, promessas divinas (o Felipe Scolari, treinador brasileiro, cumpriu a promessa de andar a pé uns vinte km até o santuário de Nossa Senhora do Caravaggio em Farroupilha caso vencesse a Copa como de fato venceu), figas e outros símbolos da diversidade religiosa brasileira. Santos fortes, orixás e energias do axé são aí evocadas e invocadas.

Existe até uma Santa Inquisição, o corpo técnico, cuja missão é zelar pela ortodoxia, dirimir conflitos de interpretação e eventualmente processar e punir jodadores e até times inteiros.

Como nas religiões e igrejas existem ordens e congregações religiosas, assim há as “torcidas organizadas”. Elas tem seus ritos, seus cânticos e sua ética.

Há famílias inteiras que escolhem morar perto do Clube do time que funciona como uma verdadeira igreja, onde os fiéis se encontram e comungam seus sonhos. Tatuam o corpo com os símbolos do time; a criança nem acaba de nascer que a porta da encubadora já vem ornada com os símbolos do time, quer dizer, recebe já ai o batismo que jamais deve ser traido.

Considero razoável entender a fé como a formulou o grande filósofo e matemático cristão Blaise Pascal, como uma aposta: se aposta que Deus existe tem tudo a ganhar; se de fato não existe, não tem nada a perder. Então é melhor apostar de que exista. O torcedor vive de apostas (cuja expressão maior é a loteria esportiva) de que a sorte beneficiará o time ou de que algo, no último minuto do jogo, tudo pode virar e, por fim, ganhar por mais forte que for o adversário. Como na religião há pessoas referenciais, da mesma forma vale para os craques.

Na religião existe a doença do fanatismo, da intolerância e da violência contra outra expressão religiosa; o mesmo ocorre no futebol: grupos de um time agridem outros do time concorrente. Ônibus são apedrejados. E pode ocorrer verdadeiros crimes, de todos conhecidos, que torcidas organizadas e de fanáticos que podem ferir e até matar adversários de outro time concorrente.

Para muitos, o futebol virou uma cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida. Alguns são sofredores quando seu time perde e eufóricos quando ganha .

Eu pessoalmente aprecio o futebol por uma simples razão: portador de quatro próteses nos joelhos e nos fêmures, jamais teria condições de fazer aquelas corridas e de levar aqueles trancos e quedas. Fazem o que jamais poderia fazer, sem cair aos pedaços. Há jogadores que são geniais artistas de criatividade e habilidade. Não sem razão, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger, não perdia um jogo importante, pois via, no futebol a concretização de sua filosofia: a contenda entre o Ser e o ente, se enfrentando, se negando, se compondo e constituindo o imprevisível jogo da vida, que todos jogamos.

Do livro: Depois de 500 anos, que Brasil queremos, Editora Vozes - 2000.

enviado por Leise

11 de mai de 2014

Mãe... São três letras apenas



Mãe... São três letras apenas

As desse nome bendito
Também o céu tem três letras
E nelas cabe o infinito

Para louvar a nossa mãe,
Todo bem que se disser
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do CÉU
E apenas menor que Deus!

(Mário Quintana)

5 de abr de 2014

Sem palavras...



"Esta secreta palavra,
poderei pronunciá-la alguma vez?
Como poderei dizer Ele não é desta maneira ou assemelhá-lo
seja ao que for?

Se digo que ele está dentro de mim, o universo inteiro se
envergonhará.

Se digo que Ele está fora de mim é falsidade.
Ele faz com que o mundo interior e o exterior sejam
indivisível Unidade.

O consciente e o inconsciente:
sobre ambos Ele repousa os
pés.
Ele não é manifesto nem oculto: não é revelado,
tampouco deixaria de revelar-Se.

Não existem palavras para dizer o que Ele é."

~ Kabir~

enviado por Ada

4 de abr de 2014

MILAGRES ...

Quero fazer os poemas das coisas materiais,
Pois imagino que esses hão de ser os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.
"E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas e não sou curioso a respeito de Deus. Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouco...
Ora, quem acha um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície.
A terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras, o movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro- existirão milagres mais estranhos?"

"Seleção de Poemas de Walt Whitmann"
enviado por Ada

15 de mar de 2014

A cultura da felicidade


Na minha pesquisa "A cultura da felicidade", 32% das mulheres dizem que não são felizes por serem perfeccionistas, insatisfeitas, críticas, ocupadas, preocupadas, estressadas, inseguras etc.

No entanto, 60% afirma que quer ser mais feliz, leve e divertida.

Elas deram inúmeras dicas para a conquista da felicidade, tais como:
não ser tão crítica com os outros e consigo mesma;
não se preocupar com a autoimagem;
não se cobrar tanto;
não aumentar pequenos problemas;
não se preocupar com a opinião e a aprovação dos outros;
não se levar tão a sério;
não querer ser perfeita;
não ter vergonha do próprio corpo
não se comparar com mulheres mais jovens, magras e gostosas;
não se olhar muito no espelho;
não conviver com pessoas negativas, agressivas e invejosas;
não fingir orgasmos;
não desperdiçar o tempo com pessoas desagradáveis e fofoqueiras;
não ir a eventos sociais por obrigação;
não responder a todas as demandas de amigos, familiares ou colegas de trabalho;
não dividir o prato só para ser gentil;
não atender aqueles que só sabem pedir ou reclamar (e nunca dão nada em troca);
não emprestar dinheiro nem para o melhor amigo;
não pedir dinheiro emprestado nem se for para o melhor amigo;
não aceitar encomendas quando viajar;
não pedir nada para os que vão viajar;
não ser fiador de amigos ou parentes
não mendigar amor, atenção e reconhecimento;
não se fazer de vítima;
não achar que é o centro do mundo;
não deixar para amanhã o que pode resolver hoje;
não ter medo de dizer não.

Uma professora de 65 anos disse que descobriu o segredo da felicidade. "Li que o lema da Hillary Clinton é 'foda-se'. Hoje, sou como ela. Não me interessa a opinião dos outros, se gostam ou não de mim e se fazem fofocas. Aprendi a ligar o botão do 'foda-se', passei a dizer não e minha vida ficou muito mais leve."

Ela citou uma frase da atriz Marília Pêra, de 70 anos, para exemplificar a importância de dizer não para ser mais feliz. "A Marília Pêra recusou um projeto importante e uma jovem atriz disse: 'Lógico que você pode dizer não, você é a Marília Pêra!'. Ela respondeu: 'É exatamente o contrário. Eu só sou a Marília Pêra porque aprendi a dizer não'."

Será que é tão simples assim o segredo da felicidade?





Mirian Goldenberg é antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de "Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade" (Ed. Record). Escreve às terças, a cada 15 dias na versão impressa de "Equilíbrio".

14 de mar de 2014

Conversa por dedução

de Martha Medeiros

Sabe a... a... aquela, você sabe... a loirinha... prima da... como é mesmo o nome... aquela que morava na rua atrás do clube... aquele clube que teu irmão jogava futebol com o... tsk, que futebol, o quê. Tênis, jogava tênis! Sabe?

Antes era só com minha mãe que eu conversava desse modo, tentando preencher os pontinhos deixados em branco. Mas hoje em dia tem sido com as amigas também. Entramos na fase da conversa por dedução. E dessa fase não sairemos mais. Não vivas.

Vocês já foram nesse restaurante novo que abriu? Esse que foi matéria ontem no... Vocês sabem, me ajudem, esse que foi superbem comentado pela... Ah, não importa, andam dizendo que é onde se come o melhor linguado ao molho de maracujá. Não: de manga. Linguado nada, eu quis dizer salmão. Salmão ao molho de manga. Isso. Já foram lá?

Completar uma frase tem sido tarefa de adivinhação. Não sei com você, mas eu não consigo mais lembrar o nome de artistas, de filmes, de lugares. Mal consigo dizer corretamente o nome das filhas, e são apenas duas. Quem tem três – e acerta – vira meu herói.

É sabido que nosso cérebro está com lotação esgotada. É informação demais para processar, não há como manter o estoque, é preciso jogar no lixo o que não serve mais. Aquela atriz... aquela bonitona... me escapa o nome agora. Pois bem, em sua biografia, ela comenta que quando esquecemos um nome, o melhor é deixar pra lá e seguir em frente, mais adiante a lembrança retorna espontaneamente. Muito bem. Assim tenho levado a vida, aguardando a volta de palavras que debandaram.

Sim, quero o CPF na nota. É 439136... não, 37... esquece, esse é meu RG. O CPF é 30055082... calma, acabei de te dar o telefone do meu escritório.

Aguardo a volta dos números também.

Caduquice de velha? Olha: não é. Tenho visto muita criança de 30 anos que também está custando para levar uma frase até o final sem se perder nos “como é mesmo?”. A questão é que estamos sobrecarregados de tal forma que esquecer passou a ser mais comum do que lembrar. E os bate-papos agora são assim, um tentando adivinhar o que o outro está querendo dizer.

Estou indo para Ibiraquera, aluguei uma casa. Falei Ibiraquera? Perequê, Perequê! Fica ali pertinho de... de... Porto Belo, obrigada. Só voltaremos depois do Natal. Depois do carnaval, isso. Muito tempo, né? Estou levando quatro livros... Esse novo da Fernanda Montenegro... Hein? Torres. Fernanda Torres. Um de um australiano, canadense, uma coisa assim. Um sobre a vida da Jane Fonda. E outro daquele cara que tu gosta, o Stephen... Philip Roth, esse aí. E um monte de palavras cruzadas, prescrição médica.

Jane Fonda, claro. Como é que pude esquecer?

enviado por Leise

30 de jan de 2014

Sinais de Maturidade



“A gente não sabe ao certo quando ela chega nem como
ela se instala - talvez porque seja de forma lenta e
quase imperceptível - mas, de repente, a gente se dá
conta da prazerosa sensação da maturidade.

A pessoa madura sente-se mais livre para expressar
pensamentos e sentimentos, dizer a sua verdade calma
e mansamente. Muitas vezes opta por não dizer nada,
ainda que esperem que ela diga, e isto não lhe causa
nenhuma culpa ou constrangimento.

A pessoa madura sente-se contente consigo mesma,
valoriza o longo trajeto já percorrido e verifica que, tanto
as vitórias quanto as derrotas, foram necessárias para o
seu crescimento e plenitude.

Não se desespera quando a vida parece dar uma longa
pausa e aguarda, com serenidade e otimismo, as novas
circunstâncias ainda não configuradas no cenário de sua
existência.

A pessoa madura decididamente não faz tipo e se liberta
de vez da ideia: mas o que vão pensar de mim?

Aprende a distinguir valores essenciais dos valores
supérfluos e descartáveis. Sabe que esta passagem pela
terra é rápida demais para ser desperdiçada com mazelas.
Os sonhos, projetos e ideais de uma pessoa madura são,
quase sempre, exequíveis. Contenta-se com o que tem,
ajusta-se dentro do próprio orçamento, não gasta mais
do que ganha e faz algumas renúncias (de forma serena)
em prol de seu núcleo familiar ou de alguma causa que
resulte no bem comum.

A pessoa madura se despoja dos melindres, se despe
dos preconceitos, deixa de ser reativa para ser pró-ativa.
Aprende a gostar da própria companhia, torna-se a melhor
amiga de si mesma, dando ao próprio "eu" os contornos
do equilíbrio.

Conhece seus pontos fortes e fracos, sabe que não tem
todas as respostas nem é dona da verdade, mas mantém
um código secreto de verdades e valores próprios que lhe
permitem nortear-se, de forma positiva, pelas diversas
circunstâncias da vida.

A pessoa madura não aparenta ser. Ela é! Ela é alguém
que fez um "clean-up", passou o "desfragmentador" no
seu "disco rígido" e deu "del" em centenas de arquivos
inúteis que atravancavam e emperravam o livre fluxo da
própria existência.

Ela é alguém que está em paz consigo mesma.”

(autor desconhecido), enviado por Gabriela

1 de jan de 2014

O Tempo

 
Carlos Drummond de Andrade

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado, o amor esperado,
a esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida, todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.

Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família seja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...

Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,

desejos grandes.

E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade.”

Faço de Drummond minhas palavras.
Feliz 2014!!!
Que seja um ano repleto de bênçãos!!!
E sonhos...

enviado por Katia e Raquel
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